domingo, 25 de outubro de 2009

Ache as linhas certas

Eu entrego o poder a você. Você sucumbi a ele. Eu entrego o poder a ele...
Deixe o poder com o poder.

A fé move soldados, também.

Quando um não quer, dois não brigam; ou não.

O Olhar penetrante e inquisidor, como que perguntando: "Questione-me; estou pronto, e você?"

É você que me quer? Tenha-me!

O Sono me nocauteia. Arranca a espada de minhas mãos. As palavras me atingem mas o sangue não brota das feridas. Estas serão para sempre presentes, e através delas nada mais entrará.

Decepção... Alvo de.

Flôr bela espanca, depois de ser espancada. Trata-se não de vingança mas de sobrevivência.

Vamos democratizar. Votamos mas influenciamos. A água sempre acha um caminho.

Caeem-se os pelos, fica a autoridade.

As fotos que trago na mente são de você.

O progresso progride para trás.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pés Apressados

Quando eu passei por ela, ela me apontou o cadáver do cachorro no chão. Tão frio e estranho, exalava morte. Seus olhos não demonstravam emoção, apenas observava.
- Está aí há muito tempo?
- É melhor tirá-lo daí enquanto as memórias não chegam – disse deixando escapar um soluço.
A pena que senti dela se confundia com a minha própria emoção. E mesmo assim não sei porque senti isso por ela. Ela foi embora correndo, escondendo o rosto entre as mãos.
- A vida é passageira. – disse repentinamente o ser desconhecido apoiado no umbral da porta - Nos atravessa em segundos e quando chega ao outro lado tudo fica melancólico e sem sentido. O cheiro que está sendo liberado nos envolve como um anzol. Para nós que estamos observando deste lado, tudo parece escuro e sem esperança. Quem saberá o que existe do outro lado. Uma viagem que os curiosos pagam com a vida. Ainda assim nosso egocentrismo nos fará esquecer isso tudo rapidamente para podermos voltar a olhar para nossos próprios pés enquanto caminhamos rumo ao seu encontro. Agora mesmo, para você isso tudo parece desconcertante, sente-se desconfortável, não sabe como se sentir.
- Justamente por não saber é que não tento descobrir; apenas sinto. Todos tentam entender, descobrir. Ninguém sabe o que aconteceu aqui.

Parti para a rua. Caminhei olhando meus pés apressados, enquanto meu corpo continuava a andar lentamente. Meus pensamentos se revezavam e se renovavam não ficando nenhum por mais do quê alguns minutos. Todos eles passavam debaixo de minha vista sem serem vistos. Pensamentos que nunca mais encontraria. Mas não tinha importância.
Encontrei-a com os olhos, parada na esquina a olhar o poste de luz. Estava banhando-se com a luz, tentando se purificar talvez.
- Estamos sujos e poluídos até o final.
Ela pareceu entender, pois baixou a cabeça. Olhou-me com olhos tristes e espelhados. Parecia perguntar algo, algo que eu ainda não conhecia. Encolhi os ombros e desviei o olhar, mas ela continuou a me perguntar silenciosamente.
- Sou uma farsa. Não sei de nada.
Ela já sabia. Só estava querendo se vingar de mim daquele jeito. Mas não fez mais do que aquilo. Percebi sua expressão altiva, quase rindo-se, porque eu não sabia. Aquilo era o suficiente para ela. Sentia-se melhor.
- Eu ainda tenho esperança de conseguir me limpar na luz, mesmo sabendo de tudo isso. Ingênua.
Ela era caridosa, não conseguia me humilhar por muito tempo. Logo depois me entregava de novo o poder e eu o empunhava orgulhoso e desprotegido. Dessa vez fui eu que sustentei um leve sorriso. Ela deixou que eu a escoltasse de volta a sua casa.

Retornando sozinho, eu perdi de vista meu orgulho e voltei meus olhos para os pés apressados que me moviam.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Nossos Olhos

Teus olhos me hipnotizam.

Olhos. Alguns com tanta coisa. Outros com tão pouco.
Já vi olhos inexpressíveis. Não mostravam nada. Pareciam vazios de tudo.
Achei que eu é que não conseguia enxergar ali dentro.
Agora sei que realmente existem olhos vazios.

Olhos são espelhos. Vemos o que queremos.
Atrás deles não existe nada. Existe um mistério.
E no reflexo existe você. Não pode ver o que não conhece.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Auto-retrato

Minhas personagens não são uma parte de mim, mas um pedaço de um pensamento momentâneo. Não têm rosto, não têm feições, não têm defeitos ou virtudes. São meros títeres enroscados em seus cordéis. Puxo uma perna e a boca se abre, puxo outra e o braço se mexe.
Sou, eu mesmo, meu títere desengonçado. Talvez um titereiro aleijado.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Infância

Ela passava naquela rua todos os dias. E eu estava sempre por lá. No primeiro dia eu estava lá a mando de meu pai. Tinha ido buscar uma caixa de tâmaras como pagamento por um serviço. E então ela passou, passou por mim sem nem me perceber. Mas eu a notei, a segui com os olhos, e notei as curvas que seu vestido fazia ao vento. Ela carregava uma cesta enorme no topo da cabeça e tinha apenas um braço levantado, apoiando a cesta.

No dia seguinte dei um jeito de escapar de meu pai e fui para a mesma rua para esperá-la. Era uma questão de acaso mas ela passou novamente pela mesma rua. E desta vez ela me olhou pelo canto dos olhos, para não derrubar a cesta enorme, e mostrou um leve sorriso de reconhecimento. Isso foi o suficiente para me instigar. Fui imediatamente falar com ela. Nunca fui tímido, então corri até ela e disse:

- Olá, meu nome...

Ela se assustou e deixou a cesta cair no chão, espalhando todos os pães que trazia no chão.
Ela olhou para os pães com desânimo e depois me olhou com um sorriso estranho, como se escondesse algo atrás dele.

- Que quer?
- Escute, eu te ajudo com os pães se você for comigo tomar um copo de leite. Eu tenho uma moeda.
- Uma moeda não dá para dois copos de leite.
- Nós damos um jeito – eu disse arrematando com o meu melhor sorriso.
- Caia fora, já tenho noivo – disse ela como se zombasse de mim. Depois recolheu os pães e se mandou em seu passo lento.

Que noivo que nada. Eu também não me importo. Vou agora jogar com meu irmão e dessa vez não vou deixá-lo ganhar. Hoje eu vou massacrá-lo, depois quem sabe consigo fazer ele comer terra.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quando o Mundo Chama

Camille corria desesperada pelas ruas de Paris. Não sabia como havia parado lá, simplesmente corria com o pavor a perseguindo. Era noite e as ruas estavam cheias de parisienses e turistas. Ela passava por todos e sentia que não a percebiam. Corria gritando, com lágrimas nos olhos, a boca crispada.

De repente parou no meio de uma praça e gritou. Todos ali convergiram seus olhares imediatamente para ela, com exceção dos outros que obviamente estavam a observando desde que ela apareceu em seus campos de visão. Seu corpo despencou no chão sem sinal de vida. O que quer que a estivesse perseguindo conseguiu alcançá-la.


........................................*


Em algum lugar da Espanha, em algum quarto, dois corpos formavam um símbolo. Cada um virado em uma direção, deitados na cama, a perna de um apoiada nas costas do outro, cabeças distantes, lençóis emaranhados em seus corpos cansados. Eles respiravam calma e profundamente. Os seios se moviam ritmicamente.

- E agora? Ainda acredita ter certezas?
- Mais do que nunca. Cada vez mais tenho certezas mais certas.
- Isso não existe. Não existem certezas, e sim ilusões.
- Cale a boca e não questione minhas certezas. Você faz parte delas.
- Piegas.
- O mundo é piegas. E você é tonta.

O mundo passava em um conto de fadas, nada parecia real. Tudo parecia ser fantasia e sonhos. Tudo era desejos e realizações. Tudo parecia ser eterno.
Parecia ser eterno também a angústia grudada no peito, a lágrima que estava prestes a existir no canto do olho amargurado e tremulo. O pensamento ficou preso entre alguns neurônios e não se concretizou em ação pelos músculos. O pensamento de olhar o relógio ficou parado no tempo, junto com a lágrima a existir. No momento em que apenas um daqueles olhos encontrasse o relógio, não seria necessário nem mesmo a compreensão daqueles símbolos impiedosos, o feitiço estaria quebrado. Nada mais seria eterno; nada mais teria gosto. O mundo apareceria para cobrar os juros das horas passadas.
Os olhos estavam paralisados na cortina com medo do que veriam, ou do que não entenderiam. Mas enfim eles chegaram ao seu malfadado destino. E fosse aquilo 9:05 ou 5:06, da manhã ou da noite, ou se ali não existia mesmo um relógio, tudo em seguida caiu. O quarto se tornou escuro e úmido, com uma luz fria e azulada. Os sons se desfizeram em um silêncio macabro. Os corpos se tornaram frios; tão frios que queimavam a pele e tornavam impossível continuarem se tocando. Enrugados e velhos, o mundo caiu sobre eles.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ele Estava Louco

Ele estava louco. Partiu para cima de mim com o cano do escapamento na mão e uma expressão insana no rosto. Aparentemente o acidente de carro não foi o suficiente para ele. Depois de ter lançado seu carro contra o meu ainda queria me arrancar a cabeça a golpes de cano. Não pude fazer nada a não ser dar cinco tiros em seu rosto e pescoço, fazendo assim com que ele diminuísse sua velocidade e enfim caísse no chão. Mesmo morto ainda me inspirava certo medo, o cano de escapamento ainda estava bem seguro e não duvidaria se por um instante ele se levantasse e o arremessasse contra minha cabeça. Mas percebi que enfim estava livre dele e pude descansar jogando-me no chão exausto. Em poucos minutos a polícia estaria aqui e tudo acabaria. Eu mesmo fiz a ligação. Chamei-os quando percebi estar sendo perseguido por ele. Nesse momento eu tive um verdadeiro pavor e medo de perder a vida pois tinha acabado de ver do que ele era capaz. O que ele fizera há pouco foi brutal, me marcou para a vida. Agora imagine que depois de ver aquilo eu o surpreendo me seguindo. Uma descarga de adrenalina veio correndo pelas veias e me inundou em um pavor nunca antes sentido por mim. Na verdade eu acho que nunca tinha sentido pavor de algo antes. Sempre fui muito seguro de mim mesmo e sei que poderia escapar de qualquer situação perigosa. Mas isso mudou quando o vi naquela noite. Logo que ele entrou no quarto eu já senti algo estranho, mas não sabia ainda o que era. Eram seus olhos. Ele estava a mais de dez metros de mim e eu sentia como se ele estivesse a apenas dois passos, me encarando. Minha reação imediata foi a de afastar o rosto por medo de tal proximidade, mas logo percebi que na verdade ele estava muito longe, e isso aconteceu quando ele tirou os olhos de mim e colocou-os nela. Percebi que nesse exato momento ela teve a mesma reação que eu, apenas mais discreta, provavelmente por estar um pouco acostumada com ele, sendo sua irmã. Mas foi então que tudo aconteceu. Ele partiu para cima dela como um raio e a agarrou pelo pescoço com uma única mão, uma mão imensa que esmagava aquele pescoço frágil. E logo como se já não fosse o suficiente ter a asfixiado quase até a morte, começou a bater violentamente sua cabeça na parede enquanto declinava seus versos improvisados:

Ba-ta-ti-nha-quan-do-nas-ce
Você é minha
Sempre minha
Meu amor por você
É inigualável
E deverá me amar
Como a seu deus
Para toda a eternidade

Vendo aquela cena incrivelmente estúpida e surreal, eu saí correndo pela porta com o primeiro indício do pavor que sentiria apenas mais duas vezes até o final de minha vida. O medo de sua velocidade sobrenatural. Parece estranho mas sua influência sobre mim foi tal que eu realmente achava que não importava o quanto eu corresse, ele iria me alcançar numa piscadela. Então entrei no carro ainda com aquele meu primeiro pavor, o primeiro de minha vida, e acelerei o mais rápido que pude, soltando um suspiro entrecortado pela tremedeira de meus lábios enquanto não o via saindo pela porta da casa. Finalmente estava livre daquela sensação, ele ficara no quarto com o corpo sem vida. Mas como eu disse antes, ainda teriam mais dois momentos em que eu sentiria aquele pavor horrível, e o segundo momento começou exatamente ali. Vi no espelho retrovisor um carro dirigindo alucinadamente, com os faróis acesos na escuridão, ziguezagueando por entre os outros carros e terminando seu caminho justamente na minha traseira, um choque violento que deslocou meu carro direto de encontro a um poste. Saindo do carro, milagrosamente vivo, olhei em direção de seu carro que estava a poucos metros de onde eu estava, o carro estava com a frente totalmente esmagada, mas ele já havia saído e dado à volta no resto do veículo, encontrando-se logo a minha frente, a alguns metros, mas novamente como se estivesse a apenas alguns passos. E de alguma forma ele havia conseguido arrancar o cano de escapamento de seu carro e agora o empunhava fumegante na mão canhota, erguido acima de sua cabeça. Instintivamente eu afastei meu rosto aterrorizado e neste exato momento eu senti aquele pavor ensandecido, do qual já falei antes, pela terceira e última vez, mas a tempo lembrei-me de que eu era na verdade um militar, e que estava ainda com meu uniforme, tendo saído a pouco do serviço e passado para visitá-la, e então saquei minha arma do coldre e atirei-lhe cinco tiros no rosto e pescoço bem a tempo de interromper sua corrida em minha direção. Ele lentamente parou e caiu no chão, ainda segurando o cano fumegante nas mãos, talvez o calor tivesse grudado o metal à sua pele. Descansei então quando lembrei-me de que havia chamado a polícia a poucos minutos e de que logo estariam ali para recolhê-lo. Mas quando percebo que fiquei por alguns muitos ou poucos minutos preso em meus pensamentos, relembrando todo o acontecido, vejo-o em pé às minhas costas, contrariando toda a minha lógica desenvolvida até agora, com o cano fundido ainda na mão canhota erguida, e nem sinal de sirenes, algazarra, populares curiosos. Vi apenas seus olhos pontiagudos em chamas, rodeados de balas, e mais uma vez, pela quarta vez, senti o pavor me tomando e gritei, me sentindo liberado, antes apenas do golpe certeiro e fatal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Nudez Apenas

"Só nos resta a nudez".

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Que Venha a Solidão Como Deve Ser

- O que foi aquilo?
- Nada, não sei. Não aconteceu nada!
- Você simplesmente me deu as costas no meio da rua!
- Eu já disse que não sei o que aconteceu!
- Mas não é possível. Como pode isso?
- Quer saber mesmo? Eu te digo o que aconteceu. Não agüento sua cara de bosta. Você me sufoca. Sempre a minha volta, me rodeando, falando, perguntando, egoísta em todos os seus comentários. Me deixe em paz!
- Mas de onde veio isso? A quanto tempo você pensa tudo isso?
- Desde sempre, nunca te aturei de verdade.
- Então por quê não disse nada antes? Por quê nunca me falou como estava se sentindo?
- Eu estou doente. Não me pergunte o que tenho porque não importa. Mas vou morrer logo.
- Como...? E não me diss...
- Não! Não disse. Não quis dizer. Me deixe em paz. Me deixe morrer sozinha.
- Eu entendi. Entendo que isso é muito difícil para você lidar e por isso age assim, me afastando. Mas eu estou aqui para te ajudar. Não vou te deixar.
- Vai embora! Não te quero por perto. Não me entende? Vai embora! Some! Eu te odeio! Quer ouvir de novo? Eu realmente te odeio!
- Entendo. Eu vou estar por perto, basta me ligar que eu venho logo.
- Não!! Me deixa em paz! Vai embora logo e não volta nunca mais! Nunca mais!

Talvez ela estivesse mesmo reagindo mal à doença. Talvez estivesse perdendo a razão ou simplesmente a calma por saber tão repentinamente que ia morrer. E tão jovem. Mas talvez ela realmente não gostasse dele. Talvez mesmo o odiasse. Então por quê estaria com ele por todo esse tempo? Medo de solidão. É muito comum nos tempos modernos onde o toque está cada vez mais escasso. Ela tinha pavor de ficar sozinha e por isso aturava qualquer um desde que tivesse sua companhia. Ela sempre foi impulsiva, obsessiva. Era apenas questão de tempo até que isso afetasse sua vida de tal forma. Suprimiu por tanto tempo o ódio que tinha dele que quando descobriu sobre a doença não agüentou e o escorraçou. Não agüentaria ficar junto dele nem mais um minuto. Por isso o ato tão violento.
Ao menos ele reagiu de uma forma contida. Pior seria que fosse impulsivo e violento também. Não teria terminado bem.

Ela agora aliviada de certa forma pela presença repudiável ter ido embora deixou-se cair no chão e chora. Chora franzindo todo o rosto, apertando os olhos sofridos, esgarçando a boca fina. As lágrimas caindo sobre seu colo. Chora tanto por estar morrendo quanto por estar sozinha. Reconsidera chamá-lo de volta apenas para que tenha alguém por perto. Sabe que é loucura, mas não consegue evitar de pensar nisso. É um vício.

Tivesse amigos e podia ligar para eles, chamá-los, pedir que ficassem com ela, que não a abandonassem. Mas não os tinha. Nunca teve. Conseguia apenas manter uma pessoa de cada vez. Tinha medo de perder a companhia se procurasse por outras. Como se esvanesce-se apenas por olhar para outra pessoa.

Ela era extremamente ciumenta, por isso achava natural que todos fossem iguais. E ela sabia que provocar o ciúmes de outro era algo imperdoável. Por isso nunca olhava para os outros, mesmo quando estava sozinha - nas poucas vezes em que isso ocorria.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vingança

Tocou a campainha. Atendeu-a um homem gordo de uns cinqüenta anos que, reconhecendo o visitante se preparava para pergunta “que...”, quando o garoto se virou de costas, pegou um revolver do bolso e atirou dentro da própria boca fazendo a bala sair pelo topo da cabeça e espirrando sangue na cara do velho, que estava estático, com olhos e boca bem abertos.


Havia pensado, “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”. Estava sempre com aquilo na sua cabeça; prometeu e cumpriria. Queria que o tio sofresse, assim como ele sofreu, vendo sua mãe tendo que fazer todo tipo de trabalho sujo e podre, se humilhando para sustentar a família. Vendo o seu pai pelos cantos da casa com a vida a se dissolver. E o bosta do tio fazendo de tudo para não ajudar. Fingia desconhecer os fatos. Quando alguém comentava, ele fugia do assunto, se escondia para depois alegar que não sabia.

O tio era rico. Tomou a empresa do irmão, se aproveitando que este tinha problemas com a jogatina, vendeu-a e fez dinheiro. O irmão logo se jogou de um prédio turístico no centro da cidade. Ele foi ao enterro e fez um belo discurso para o amado irmão.


Quando seu pai finalmente morreu, a mãe pediu abrigo ao tio já que sua casa havia sido tomada pelos credores. A casa do tio era grande para todos, mas ele alegou que estava fazendo uma grande reforma e que assim não poderia ajudá-los.


Quando sua mãe morreu, foi morar na casa do tio, decidido assim pelo juiz por ser o parente mais próximo e capaz de criá-lo. Na casa não dava descanso ao garoto. Não o deixava sair nunca e enchia-o de tarefas.


Quando finalmente completou dezoito anos, saiu daquela casa, para gozo do tio que sonhara com aquilo por dois anos. Envolveu-se em protestos políticos sempre tomando partido dos mais pobres, até começar a ser procurado pela polícia por acusação de agitador e perturbador da ordem pública. Quando descobriu que estavam mesmo atrás dele, sabe-se lá com que outros vis intuitos, pensou “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Jantar

Eram quatro. Sentados ao redor da mesa, curvados por cima
dos pratos, a raspá-los com as colheres. Metal contra
porcelana. Não falavam nada, apenas engoliam. Curvados sobre
o vapor dos pratos. O vapor a acariciar-lhes a face, a
amornar-lhes a pele. O odor de repolho invadindo as narinas.
E as colheres a raspar, e a soar. E os lábios a sorver, as
linguas a lamber. A sopa rola garganta abaixo amornando os
tecidos. As colheres gritam, os lábios se apertam e os olhos
boiam na sopa, sem destino.

A Prostituta

Se ele tivesse dinheiro a compraria. Pagaria por todo o
seu tempo para que ninguém mais lhe pusesse as mãos. Nenhum
daqueles operários sujos se aproximaria mais dela. Mas ele
não tinha dinheiro, o único dinheiro que tinha era suficiente
para apenas alguns minutos todo mês. Mesmo assim achava que
pelo menos por alguns minutos poderia livrá-la daquela vida
viciosa. Aliviá-la daquele ar nauseabundo.

Um mês havia se passado e ele continuava trocando seu pouco
dinheiro por aqueles poucos minutos mensais.
Ele já estava esperando no quarto de sempre quando ela
entrou sorridente segurando duas gramas de um chocolate
aguado que comprara com todo seu dinheiro infeliz. Virou-se
para apoiá-los sobre a cadeira onde geralmente os homens
apoiam suas roupas e ele levantou-se apressado agarrando seu
frágil pulso. Ela virou-se e deu com seus olhos loucos e as
palavras "vamos! agora!". Franziu as sombrancelhas
perguntando "o quê?" em seu idioma natal, e ele, como se
tivesse entendido, disse "quero agora!". Imediatamente ela
entendeu o que dissera, mesmo sem entender as palavras, e,
antes fosse outro homem qualquer ela teria acedido,
mas, tomada pela surpresa, não conseguiu pensar - ou pensou
demais - pois soltou-se da forte garra e correu em desespero
para a porta. Ele alcançou-a enrodilhando-a por trás com um
braço e tapando sua boca com o outro.

"Não foge" ela sentiu o peso daquelas palavras em seu
pescoço e não podia lutar; porque havia morrido. Naquele
momento havia sido demolido o canto de felicidade de sua
vida. O lugar em que ela todos os dias ansiava chegar; onde
ela esquecia do passado; que a fazia pensar no futuro. Em um
instante tudo aquilo foi destruído. Ela talvez o amasse, ou
talvez amasse tudo aquilo que ele a prometia.

Morta; mas apenas por fora porque por dentro ainda estava
viva; viva e lutando. Batia nas grades, chutava os portões,
gritava, mas suas ações não passavam pela pele. E de dentro
não sentia o que vinha de fora, não sentia as mãos, não
sentia os lábios, violando o seu sexo violado. Seus olhos
não fixavam nada, pairavam no vazio. De dentro não percebeu
a porta batendo apressada; não percebeu quando alguém a
estapeou, nem percebeu quando a deixaram em um beco, com os
raios insensíveis do sol cobrindo-lhe o rosto. Até perceber
que de nada adiantava lutar, e apagar-se, morrendo também por
dentro.

sábado, 22 de março de 2008

Deus

Deus, salva-me porque não te creio.

terça-feira, 18 de março de 2008

Crianças Não Têm Problemas

Chegara as férias. Nos apartamentos acima todos ouviam os gritos das crianças que corriam e se perseguiam no pátio. Ah, como é bom ser criança. Não ter problemas na cabeça.

As crianças, aos punhados, passavam a toda hora umas atrás das outras. Jorge apenas olhava; olhava o céu. Sentado na mureta de dez centímetros observava o céu. Gostava de olhar o céu, as nuvens e suas variações de cor e formato.

- Está bem? - pergunta uma garota.
- Sim.

Ela continua a correr. O punho fechado o acerta no rosto. Ele fecha os olhos para senti-lo melhor. Observa o céu, mas agora com as pálpebras apenas, porque por trás das pálpebras ele observa o soco. O soco que acerta a face de sua mãe, e a risca de sangue que escorre de sua face. Papai está bravo. Está com o orgulho ferido e precisa de seu remédio. Por isso
ele chega em casa e acerta em mamãe. Agora está melhor. Sentado no sofá, ele sente que tem o poder de volta. Sente-se mais homem do que antes.

É a quinta vez neste mês. Mas ele toma o remédio e melhora. Espero que ele não tenha mais frustrações na vida, para não ter que tomar o remédio outra vez. Papai sente-se mal. Sente-se preso a esta vida, a esta família. Sente-se frustrado por não ter conseguido realizar nenhum de seus sonhos. Mas papai tem seu remédio. E tudo está bem agora.

Lá está o céu.
Com seu vermelho vivo, suas nuvens escuras e uma grande cicatriz que se põem no horizonte. Uma cicatriz que verte luz e céu. Uma cicatriz que verte e pinta o céu de vermelho. Uma cicatriz que se põe e torna a retornar no outro dia.

Perfeição

Estava triste. Estava sozinho. Tinha perdido a família inteira em um acidente de trânsito. Pais, tios, avós, primos. Não era uma família muito grande, mas coincidentemente estavam todos no mesmo ônibus, indo para o litoral passar o fim de ano. Bastou um carro passar-lhe à frente para o ônibus capotar, foi o que lhe disse o guarda rodoviário. Com certeza seria um choque para uma pessoa ordinária, mas ele era forte. Ao menos era o que ele achava. A primeira noite depois do acidente foi insone. Apenas na segunda conseguiu dormir um pouco. E sonhou.

Estava escuro, não se via nada. Sentia apenas uma brisa suave, mas não conseguia distinguir de onde vinha. Foi então que ouviu uma voz, rouca e irônica.

- Sente-se bem?
- Quem é?
- Não te interessa!
- Não seja covarde! Apresente-se. - Disse insolente como sempre.
- Está bem. Muitos me chamam de “deus com Letra Maiúscula”. Mas você pode me chamar como quiser, invente uma palavra.

- Deus não existe! Isso é óbvio.
- Hm. Eu já tive várias crises existenciais. Tantas pessoas dizendo que eu não existia. Outras contradizendo com tanta fé que sim, eu existia. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que eu existo. E se não existir, não tem problema. Eu finjo existir e é o suficiente. A questão é que eu sei o que aconteceu com você, ou o que NÃO aconteceu. Sei muito bem, se é que me entende.
- Mas se você é deus, então você é o culpado por isso.
- Está certo.
- E porque fez isso? O fato de eu não acreditar em você o irrita?
- Bem, acho que você já foi convertido. Afinal está falando comigo.
- Isso não vem ao caso! Diga porque fez isso!
- Porque costumo ficar entediado sozinho, então faço uns acidentes para me animar.
- Entediado?! Mas você não é perfeito? Como poderia ficar entediado?
- Já se olhou no espelho?
- Que quer dizer com isso?
- Quero dizer que se você reparar em si mesmo verá que é imperfeito. E se você é imperfeito, eu que te criei também sou. Se eu fosse perfeito não erraria nas minhas criações. Uns dizem que eu estou testando vocês, por isso os fiz imperfeitos. Mas eu não acredito nisso. Devem estar mentindo para me animar.
- Mas se é imperfeito por quê tem o poder que tem? Não te parece errado?
- Sim, mas na Terra existem muitas pessoas que têm muito poder e mesmo assim são tão imperfeitas quanto eu. Na verdade mais. Você agora parece uma pessoa razoável. Garanto que já pensou que se tivesse tal poder não usaria em proveito próprio, ou faria algo para ajudar os que não têm tal poder. Não é verdade? Mas a real verdade é que todos são corruptíveis, e muitos dos que hoje têm grande poder já pensaram assim como você. Mas depois de um tempo, quando você percebe a enormidade do poder que tem em mãos, é muito difícil pensar nos outros. Um dia você está mais fraco, mais cansado e não tem paciência para lutar contra os desejos. Eu sei bem o que estou falando, sofro disso. É como um vício, você diz que na próxima vez que for tentado não cederá, mas todos sabem que na hora não é tão fácil. O prazer vence tudo, qualquer força de vontade, eles apenas preferem acreditar que podem resistir. Essa é a maior vantagem de ser quem eu sou. Eu posso assistir tudo "daqui de cima", como dizem alguns. Sei de todas as mentiras que contam, sei de todos que têm medo, sei quais são os defeitos de todos.
- E onde você está? Onde estamos agora?
- Em todo lugar, no seu sonho, espalhados pelo universo. Você nunca poderia ir onde eu estou, nem se tivesse poder para tal. Porque não sou físico, nem estou em um lugar físico. É como a tal da realidade paralela ou universo paralelo. Estou em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Imagino que não entenda.
- Acho que entendo sim.
- Acha mesmo?
- Acho! Mas isso não faz diferença. Você mudou o assunto completamente. Por quê derrubou aquele ônibus? Não têm piedade? Não têm sentimentos que te doam quando percebe a infelicidade dos que ficaram, dos que sentirão saudades eternas?
- Sentimentos eu tenho, mas como eu já disse tenho também muito poder. De vez em quando eu posso fazer algo bom ou útil para alguém, mas a maioria das vezes eu apenas vou fazer o que me divertir, o que me der vontade. Isso é muito normal na minha opinião, muito humano. Não vê como as pessoas são? Não vê que as pessoas se importam mais com acidentes e catástrofes do que com boas ações. Quantas pessoas param quando vêem alguém dar dinheiro para uma mulher esfomeada com dois filhos pequenos, ou qualquer coisa do gênero? Agora me diga quantas pessoas param para ver quando um acidente de carro sério acontece. Quando há possibilidades de mortes e ferimentos sérios. Se uma batida acontecer, todos olharão. Tudo bem, é a curiosidade e o reflexo que estão agindo, mas repare que se for uma batida sem importância onde no máximo um pára-choque se amassa, todos continuarão seu caminho. Agora, se a batida for grave e eles perceberem que provavelmente existem feridos, eles querem olhar, querem saber. Você pode me dizer que é a curiosidade novamente, mas afinal a curiosidade não dá um certo prazer? Não te dá prazer “matar a curiosidade”? Se eles não obtivessem prazer com a curiosidade não ficariam lá, observando o metal torcido, as pessoas gritando das janelas de um prédio em chamas, etc.
- Então admite que a Terra é apenas o seu joguinho particular, que nós humanos somos apenas peças de um tabuleiro que você manuseia como quer? Admite isso, mesmo sabendo que todas essas peças têm sentimentos, que sofrem? Você não pode dizer que não sabia que podíamos sofrer, como uma criança quando atira uma pedra em um pássaro, ou quando pisa em um inseto. Não pode dizer isso. Você é pior que uma criança!
- Sim, eu admito. Mas é assim que as coisas são. Vocês estão em meu tabuleiro e eu estou jogando com vocês, como qualquer humano que caça um animal por diversão, que mata insetos para colecioná-los. Se eu fosse um humano você não poderia me condenar por estar agindo assim. Você está se esquecendo que eu também sou imperfeito, não posso simplesmente ignorar meus anseios, meus desejos. Às vezes desejo me divertir, e se apenas me divirto com o sofrimento de vocês então não há outra escolha, prefiro me divertir custe o que custar a sofrer por não poder me divertir. Também sou egoísta. E não me diga que eu sou pior que uma criança, pois quem não é pior que uma criança? Todos são melhores e piores que uma criança. As crianças mesmo são, ao mesmo tempo, abençoadas e amaldiçoadas com sua pureza. Por causa de sua pureza as crianças não violentam outras crianças, não roubam dinheiro de outras pessoas, não se incomodam de estarem com as roupas sujas. Mas apenas por quê isso não as interessa. Elas não têm o desejo sexual para suprir, o dinheiro não as serve de nada e não importa a roupa que usem porque não importa mesmo se estão usando roupas ou não. Mas quando é algo que as interessa, elas agirão tal como os adultos. Elas roubarão, mentirão e machucarão. Não importa quem esteja no caminho. Você pode pensar que se os humanos tivessem a sabedoria da terceira idade e a inocência e pureza das crianças o seu mundo seria melhor, mas isso não é verdade. Porque eles ainda teriam os desejos, eles ainda teriam os tais sentimentos, eles ainda seriam imperfeitos! O mundo nunca será um lugar perfeito porque não existe perfeição! E o mundo nunca será um bom lugar porque ninguém consegue vencer os próprios sentimentos! Não está me vendo agora?
-... Você espera ser desculpado simplesmente porque alega ser imperfeito?
- Não é assim que vocês agem? Não cometem seus erros deploráveis e depois dizem que são humanos, que são imperfeitos e que por isso devem ser perdoados? São todos hipócritas! Querem que os criminosos sejam presos sem compaixão, mas quando os criminosos são vocês esperam e choram por misericórdia. Tenho tanto direito de usar minha imperfeição como desculpa de meus erros como vocês. Já pensou que desde tempos remotos até os tempos atuais nada mudou? A Terra é tão imperfeita e ruim quanto sempre foi. E eu não posso fazer nada. Talvez pudesse se fosse perfeito, mas se fosse perfeito não precisaria fazer isso. Pois agora sabe também que não sou onipotente, não tenho o poder para fazer qualquer coisa, porque não tenho poder para fazer isso. No final tenho quase tanto poder de mudar o mundo quanto você. E isso não me agrada... Acho que não foi uma boa idéia falar com você; só me aborreci. E isso não é bom para vocês.
- Espere! Por favor, não me deixe acordar. Não tenho vontade nenhuma de continuar vivendo depois de saber tudo isso. E aproveitando que estou aqui, eu poderia muito bem continuar aqui.
- Não posso fazer isso.
- O quê?!
- Tenho curiosidade, de saber como vai encarar a vida de agora em diante. - sorri.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Bored tonight

"Hi, I am pretty russian girl. Bored tonight."

domingo, 6 de janeiro de 2008

O sonho é...

O sonho é a bebida do abstêmio.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vida

Ela entrou na casa; em cada canto, em cada cadeira, em cada sofá jaziam os corpos trêmulos, espasmódicos, suspirosos. Estavam todos drogados, extasiados de vida; tinham vida a sair pelas narinas. E ela continuou andando através desse sseres com repugnância e horror na face. Via os rostos contorcidos, as pálpebras tremulantes. Em um desses rostos encontrou Álvaro. Estava igual a todos os outros; suspirava. Quando percebeu os movimentos próximos, abriu os olhos e a reconheceu. "É soberbo", disse com voz sumida. Uma lágrima escorre pelo rosto dela, "eu sei", "já se passaram quantas horas?", "dezessete. Já é o suficiente?", ele diz que sim com a cabeça; Ela afasta-se.


Logo ele começa a acordar do torpor. Mexe-se lentamente, como uma preguiça. Apóia-se na cadeira, senta mais ao fundo, curva o tronco para a frente segurando a cabeça com as mãos. Os lábios contraem-se, as bochechas caem; ele sente o gosto amargo na boca. Ela volta, "vamos?", "sim", responde ele levantando-se da cadeira lentamente. Ela vai à frente martelando os tacos soltos com os saltos altos e ele, logo atrás, os varre arrastando as sandálias.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ignorância

Não sou inteligente o bastante para lutar contra a ignorância deles.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Introspecção

A água estava escura e imóvel, mas quente. Ela cabisbaixa pensa. E vê algo. Um dedo saindo esticado da água. Depois uma mão, um braço, uma cabeça.
“Então, nesse mesmo dia, à muito tempo atrás, você nasceu?”. Mexe a cabeça. No pequeno movimento a ponta dos cabelos encosta na água, se afasta encharcada. Uma gota cai da ponta dos cabelos até a água levemente ondulante. Morde o lábio inferior. “Muito tempo. Está desgastada, enrugada”. Aperta mais forte. Apóia-se na ponta dos pés na borda da banheira e a encara. “Sei como é isso. Mas sou apenas uma sombra”.

“Vou te contar uma história. Um dia ela morreu. Fim”. Um dia... “E a sombra se desvaneceu. Todo dia você é um rascunho. Mas no último dia você é um trabalho pronto. As pessoas vão olhar, admirar, criticar, e esquecer”.

Uma outra gota cai na água e a onda produzida arrasta a escuridão. Vê seus joelhos. Odeia seus joelhos. “Até outro momento”. A luz se acende e o reflexo na água ofusca seus olhos. Ela sai da banheira, coloca um casaco pesado por cima da pele e sai para as ruas vazias. Pára na frente de um prédio, olha para uma janela e espera uma coisa. Não há luz. Dormem. Ela nunca chora, mas agora desejaria poder.

Mais uma noite de vigília. Sentimentos desesperados. Nostalgia cruel. Anos passados. Vida desperdiçada.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Boa Morte

O menino saiu para o bosque próximo de sua casa pensando em provar a todos que ele realmente não era um menino mimado. Logo foi encontrado por um urso marrom que fuçava nos arbustros e pensou "essa é a perfeita chance de provar que todos estão errados quanto a mim". Partiu para cima do urso gritanto e fazendo ruídos ininteligíveis, o que parece ter realmente incomodado o urso, que se ergueu nas patas traseiras e desfechou-lhe um tapa no rosto arrancando parte da bochecha do garoto que embriagado em adrenalina e estupidez investiu novamente contra o urso. O animal apenas o derrubou com um tapa leve, fazendo-o cair às suas patas. Não demorou para cavoucar o abdômen do garoto e jogar suas tripas longe. O garoto, ainda sem dor, pois além da adrenalina estava já cheio da morte, começou a tremer os lábios enquanto olhava através do céu. O urso, vendo o ser idiota imóvel foi pacificamente embora sem se importar com o apêndice do garoto que estava enfiado em uma de suas garras.

O garoto, olhando para o próprio corpo, viu centenas de formigas agitadas que andavam por sua extensão. Não sabia mas estava sendo mordido inúmeras vezes, pois sua carcaça em breve inútil havia caído sobre um formigueiro. Observando as formigas pensou que elas, com seus instintos, vieram para felicitar o mais novo bravo homem. E pensou ainda "sou um bravo homem; sou um homem corajoso; não mais um menino mimado". E então apagou, pois a morte havia transbordado em seu corpo.

domingo, 4 de novembro de 2007

Nove e cinquenta e oito. O povo se aglomera na frente das portas do banco. Bancários e pagantes se acotovelam para decidir quem ficará com o rosto contra o vidro da porta (ou contra as portas de vidro). Ninguém entra antes das dez horas, é a regra. Dez horas, os sinos da igreja da rua de baixo soam. O povo aumenta o volume, ensurdecedora celeuma. Um homem caminha em direção à porta sobre o piso de cerâmica. Abre a porta, mas se esquece de tirar-se do caminho e é atropelado pela turba ensandecida. Todos correm, bancários na frente, povo atrás. Todos buscam seus postos. Quando todos os bancários estão de posse de seus assentos não resta ao povo senão suspirar. Suspirar e entrar na fila. E então a briga é para saber as posições na fila. O primeiro está sempre contundido de alguma forma. Então, depois que os paramédicos retiram os corpos inválidados a sineta soa pela primeira vez no dia. O primeiro da fila corre com seus hematomas para o caixa que chamou e fala com tanta rapidez quanto é possível entender. O caixa com seu olhar de enfado trabalha rápido mas sem se exaltar. Seus dedos movem-se tão depressa quando formigas em retirada. De repente escorrega da cadeira e se contorce no chão.

O médico corre, examina e proclama: "Uma severa LER. Repouso absoluto da mão por três meses." Tão rápido o médico terminou a proclamação o tal primeiro da fila pulou por sobre o balcão e assumiu o posto. Tocou a sineta.

Três e cinquenta e oito. Todos os banqueiros estão prontos e à espera. Olhos atentos à pequena porta ao fundo. Quatro horas anunciadas pelo sino sonante da igreja. A portinha se abre, sai o homem encaminhando-se confiante e sempre olhando para o horizonte. Abre a porta e lembra-se de colar-se à parede lateral. Os bancários lançam-se das cadeiras, saltam os balcões e correm para não ficarem presos no banco. Agora é só voltar para casa e dizer aos filhos "Eu fui o primeiro a entrar no banco hoje". Mal sabem eles.

domingo, 28 de outubro de 2007

Crianças são E.Ts.

- Você dizia...?
- Crianças. Eu tenho pavor de crianças, doutor.
- Crianças, ein?... (Alô. Sim, eu tenho um aqui. Podem vir
buscar) Diga: Elas gostam de ir ao parque?
- Ah, doutor. Eu imagino que sim. Ou melhor, acho que não.
Elas devem fazer coisas piores que ir ao parque.
- Mm. Diga, descreva o cabelo delas.
- Ah, doutor. São cabelos normais, de diversas crianças.
Tinha uma que tinha aquele cabelo tigelinha. Horrível,
doutor. Outra tinha cabelo comprido... E franja. Apavorante,
doutor. E elas olhavam para mim com uns olhos negros,
malvados, rindo na minha cara. Ainda me lembro daquela com
cabelo um pouco comprido que tinha separado no topo da cabeça
dois maços de cabelos pendurados. Pareciam duas maçanetas.
Uma vez sonhei com ela, doutor. Ela vinha na minha direção
rindo alto, com a faca na mão e as duas maçanetas
chaqualhando. Passei a noite em claro. Mas o pior foi aquele
moleque. Ele tinha o cabelo tão loiro, doutor, que às vezes
parecia verde. Verde! doutor. Nunca tinha visto cabelo verde,
doutor. Deve ser um E.T.. Sim, são todos E.Ts., o que mais?!
O que acontece doutor? Por que me atormentam?
- Pode entrar.
- É esse daí?
- É sim. Podem levar.
- Doutor! Não. Não deixa, doutor. Me ajuda, doutor. São as
crianças! São elas! Não permite, doutor! Por favor. Elas vão
acabar comigo! Eu não vou deixar. Não! Doutor! Doutor!
Doutor!

Meu Dente de Leite

Ficamos lá por algumas horas. Olhando a TV, sem falar nada, como mortos. E então quando eu fui embora eu me senti como sempre me sentia a maior parte da minha vida quando me distânciava de alguém que eu gostava, encarava meu próprio tédio e minha falta de personalidade. Quando cheguei em casa, recebi aquilo como um choque, mais forte do que nunca... A saudade. Mesmo sabendo o quando eu gostava dela e o quanto ela apenas me tolerava. Coloquei o toca-CD no chão, deitei na cama e ouvi Tears in Heaven inumeras vezes. Não chorei. Não choro a muitos anos. Apenas cultivei aquela dor incomensurável e desesperadora que aproximava minha cabeça da parede dura. Como um dente de leite pendendo da gengiva que eu cutuco, torço sentindo um prazer dolorido.

Expectativas

Ela chegou e começou a falar. Não demorou muito e as mudas começaram a crescer, por entre os fios de seus cabelos, no topo da cabeça. Ele colheu-as cuidadosamente e levou-as para o jardim. Depois de abertos os buracos na terra ele as plantou, regou e esperou. Dois dias, uma semana, três mêses, sete anos. Nunca brotavam. Nenhuma delas. Ele não se importava, mas os outros... se decepcionariam, muito. E ele continuava tentando. Mas nunca conseguia. Já tinha desistido a muito tempo.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Take the Risks

- I'm gonna say to you for the last time: You have the choise. A or B. You pick the right one she lives you die. You pick the wrong one you live she dies. Time's running.

- I can't do this. I don't know which one to choose. I don't wanna kill you but I don't wanna die either. I can't, I can't!
- C'mon, just pick one!
- No. I can't. I don't wanna kill you and live. I don't wanna live like this. It's fifty percent on each choise.
- You have to take the risks! Just pick one.
- I can't do it. I have too pick the easiest way. I'll choose neither.
- What?
- It's the best choise. Just one shot. It'll be painless.
- You don't know that. Don't be stupid! Pick one! Anyone!

- Time's up. What is your choise?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Traição (o retorno)

Você está com sua companheira no sofá, noite fria, assistindo a um filme, com o braço ao redor de seus ombros e ela com a cabeça recostada em seu peito. Ela ergue o cotovelo um pouco e golpeia fortemente seus testículos.

Isso é traição. Você não sabe de onde vem.

domingo, 14 de outubro de 2007

The Old Times

the old lady, the old bed
the old face, the old hag
the old friends, the old life
the old people, the old time
the old problems, the old mind
"Nothing is like the old times",
would say your grandpa.
damn, he's right.

Organização

Vamos lá! Homens aqui e mulheres aqui. Mas esses homens são homossexuais, então ficam ali, e ali as mulheres homossexuais. Espera um pouco. Desses grupos eu tenho que separar os pretos, brancos, amarelos e vermelhos; e os de cores indefinidas. Homens brancos de barba pra cá, sem barba pra lá. Mulheres de barba pra lá, bigodes também. E agora? Homens de cabelo comprido aqui, e mulheres de cabelo curto aqui. Aqui os bebês, aqui as crianças, aqui os adolescentes, os adultos aqui e os velhos caquéticos ali. Crianças loiras ali, crianças ruivas aqui. Velhos carecas lá, velhos carecas de manchas na cabeça ali e velhos de cabelo grisalho pra cá. Aqui as mulheres de peruca, ali as de cabelos pintados... Pronto. Os de dentadura aqui e aqui. Neste aqui os cancerígenos pretos adolescentes fumantes. Os anêmicos brancos de peruca lá.

Isso é extremamente cansativo. Chega! Vão todos para um grupo só. Eu coloco uma etiqueta aqui e pronto: Lixo.

sábado, 22 de setembro de 2007

A Menina que Não Sabia Ler

Foi em São Paulo que ela nasceu e se criou, na década de oitenta. Família liberal. Mas ela não. Ela discordava dos costumes familiares. Das loucas festas semanais. Regadas a álcool e drogas. Que tipo de família é essa, ela pensava. Resolveu sair de casa quando fez vinte anos. Alugou um apartamento pequeno e achou que agora sim, sozinha ela poderia viver decentemente. Poderia se preocupar com seus interesses. Gostava muito de ler mas na casa de sua família era sempre tão barulhento que não conseguia se concentrar. Quando encontrou um trabalho de livreira em uma pequena livraria achou que finalmente tudo estava se encaminhando. Em seu novo trabalho, nos tempos de menor movimento da loja podia folhear vários livros a sua vontade. Chegava a ler diversos livros nessas folheadas, pouco a pouco. Mas ela gostava mesmo é de comprar os livros, de relê-los. Já tinha montado uma estante que ocupava toda uma parede de seu já pequeno apartamento.
Já tinha aumentado sua coleção em algumas centenas de livros, de assuntos diversos, todos lidos e relidos inúmeras vezes.

Ela tinha uma peculiaridade. Quando lia algum livro, ela tinha a capacidade de penetrar tão fundo na história, se distrair tão profundamente e através das palavras escritas criar as imagens com imensa facilidade. Mas ela não se contentava em transformar as palavras em imagens. Nos livros em que o autor não dava uma boa descrição dos locais, das personagens, de suas roupas, suas manias, seus defeitos, seus sotaques ela mesmo inventava. Atribuía quase que instantaneamente, assim que a personagem aparecia, todas as suas características, virtudes e defeitos. E a cada vez que relia o livro, ela recriava todos as personagens, todos os detalhes, toda a mobília dos cômodos, as fontes das praças, a cor dos pássaros nas árvores. A ponto de criar uma história paralela à do livro. Ela continuava a passar os olhos pelas palavras, a virar as páginas e a começar e terminar os capítulos. Mas as palavras que ela lia já não eram as que o autor escolheu. Ela substituía todas as palavras por suas próprias. Por onde passava os olhos as palavras iam se transformando, as letras iam se apagando e outras iam aparecendo no lugar. Assim, nunca lia a história inteira de um livro. E quando alguém comentava sobre um livro, ela dizia que sim, que lera, e passava a citar inúmeros trechos que ninguém reconhecia. Falava de personagens que não existiam e de histórias absurdas. Pouco tempo levou para que fosse considerada mentirosa. Ela continuava a citar e a afirmar piamente que não se enganara, mas ninguém mais acreditava. Está louca, diziam.

Foi em pouco tempo que acabou por se trancar em seu pequeno apartamento. Não saia para nada. Pediu demissão na livraria e arranjou um emprego escrevendo resenhas de livros para um jornal bairrista. Deixou alguns anúncios na internet para conseguir ganhar um pouco de dinheiro escrevendo redações para estudantes do segundo e terceiro ano. Comprava cada vez mais livros em lojas on-line e lia pelo menos um ao dia. Comia pouco, e nunca enquanto não terminasse um livro. Comprava somente sopas prontas para não perder tempo e comia uma por dia, logo após terminar o livro diário. Assim que terminava de comer passava para o próximo livro. Quando o dinheiro não dava nem para sopas, nem para livros ela relia os mais novos. E relia como se fosse um outro livro acabado de chegar. Uma nova história, novas personagens.

Até o dia em que comprou um determinado livro. Chamava-se “A menina que não sabia ler”. O livro falava sobre uma garota que saiu de casa cedo e passava a vida lendo livros.
Mas na verdade ela não os lia. Olhava apenas as letras e as palavras. Admirava-as sem saber o que significavam. Nunca tinha conseguido aprender a ler. Seus pais tentaram diversos colégios e professores particulares, mas ninguém conseguia ensiná-la a ler. E mesmo assim ela continuava a comprar livros diversos e a olhar letra por letra até o final. Sem nunca entender o que elas lhe diziam.
Ela se afeiçoou com a personagem. Sua história a fascinava. Não sabia porque. Ela sabia ler, mas por algum motivo aquela história parecia muito com ela. Passaram-se semanas e ela continuava a ler aquele livro. Não comprara mais nenhum outro livro, tampouco suas sopas, pois não tinha dinheiro. Não fazia mais os trabalhos usuais. Não checava os pedidos de redações dos alunos. Não enviava mais resenhas. Apenas lia. O mesmo livro. O infindável livro. Já oito semanas haviam se passado e, mesmo lendo compulsivamente, emendando vírgulas e pontos finais o livro não terminava. Estava cada vez mais obcecada pelo livro, pela sua história, pela personagem. E cada vez mais fraca. Estava na mesma posição de quando começou o livro. Deitada de bruços, apoiada nos cotovelos, com o rosto seguro pelas mãos; olhar atento, mordendo o lábio inferior. Não se movia; quase não respirava. As pálpebras pendendo, se fechando, tremulando. A expiração exalando e varrendo a poeira de cima da página número sete. Cílios contra a pele. Imóveis.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

The Ken' Show

- Hi. I'm Fred Savage from The Ken's Show. I'm here with this villager to know what he does for living. Hello, sir. What're name?
- Who the hell are you?
- I'm Fred Savage.
- And who the hell were you talking to?
- I was talking to my boss on the studio. He's on the north of the country. You're live on The Ken' Show!... From satellite.
- Satellite?! Are you a wizard?
- No, sir... I'm not a wizard. I'm talking to my boss through this little phone on my ear
- You are a wizard! You were talking to satan! Satan is your boss! Hey, fellows, he's a wizard. He's talking with the devil. I saw him. Let's burn him up!
- Wait a minute! You missunderstood!
= BURN! BURN! BURN!
- Hey, hey! Stop it! Get off me! Don't touch that! Boss!! Help me!
- Well, Fred. Seems like you're in trouble. Now let's get back to the studio and see the dancing monkeys.

O Caminho do Meio

Encontraram-se no meio da algazarra das festas religiosas e levaram-se um ao outro para uma rua escura, deserta, longe da multidão. Enquanto ia, ele pensava. Já se conheciam a quase dez anos. Ele sabia que ela sentia algo por ele. Seus amigos diziam sempre. Ela mudava-se perto dele. Corava. Tornava-se monossilábica e estava sempre sorrindo. Ele não. Nunca mudara. Estava sempre impássivel. Sério mas terno; como agora. Intrigava-lhe aquela mudança repentina da garota. Bochechas vermelhas ardendo em fogo, como febre. Movimentos involuntários e desajeitados. Já tinha escutado algumas coisas sobre isso. Seus irmãos falavam sempre. Mas lhe parecia diferente. Não era igual ao que ouvira.

Quando entraram numa casa, viu através das sombras, num dos mortiços raios da lamparina a óleo da rua, o sorriso. Sentiu-se subitamente bem. Mesmo depois que a porta se fechou e o sorriso sumiu na escuridão. Mas não demonstrou o prazer em sua face. Um lençol cobrindo uma porção de palha era a cama, e logo se deformou sobre o peso dos dois. Entre os beijos que ela lhe dava suas mãos o despiam. E ele só se deixava despir. Deitada, ela já estava ofegante, respirando pesadamente em seu rosto. Mas ele apenas observava as sombras movendo-se. Sentia os braços agarrando-se ao seu redor. As pernas e o corpo inteiro se envolvendo nele. Sentia o calor do corpo como se fosse atravessado por ele. Os dois corpos pareciam se atrair. Cada vez mais juntos. Apertando-se mais. Fundindo-se. Então, como se se repelissem, uma dormência atingiu todo seu corpo mantendo-os separados. Ela rolou para o lado e se cobriu. Ele sentou-se e sentiu-se cansado. Lenvantou, vestiu as calças e saiu pela porta com passos mortiços e lentos, olhando através do chão, direto para o centro do planeta.

Experimentar de tudo antes de seguir.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Surpreendo-me

Cuidei que estava sendo vigiado a vida toda.
Surpreendo-me que os olhos eram teus.

Amo sempre as que não se devem amar.
Sou amado sempre pelas que não posso amar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Mundos Pessoais

- Diga, Osório. Já contou sua teoria ao Palermino? – perguntou o inglês.
- Não é uma teoria, é apenas uma conjectura. E não, não contei.
- De que se trata? – questionou Palermino com sua curiosidade costumeira.
- Do mundo.
- Então conte, que já me cativou.
- Conto:

Certamente todos aqui conhecem tais doenças chamadas mentais como a paranóia, o estado catatônico e outras mais. A partir destas doenças raciocinei que o cérebro é onipotente dentro do mundo de cada um. E explico: como explicar o fato de que alguns gostam de uma cor e outros de outra cor; uns gostam de um sabor, outros não gostam; se não com a idéia de que cada um tem seu próprio mundo? Pois me parece que se tudo fosse claro, este é bom, aquele é ruim, não haveria gostos, não haveria preferências diversas. Imagine quem gostaria de comprar aquele sabão em pó que é ruim, que estraga as roupas. É óbvio que escolheria o bom, pelos benefícios. Assim digo que cada um vive no seu mundo pessoal. E digo ainda que este mundo é construído por nós mesmos, cada um o seu. Mas não penso que isso seja consciente, ou não existiriam tantos infernos. Assim como pouco a pouco o homem constrói a paranóia, pouco a pouco também o homem constrói seu mundo. Suas cores, suas pessoas, suas tragédias. Se quiser que o céu lhe seja vermelho, será vermelho. Se quiser que seja azul, será também. E quando lhe falarem do azul do céu, ouvirá que lhe falam do vermelho do céu. Assim como nos dizem que estão vendo algo e juramos que o que estamos vendo é outro algo que não aquele. Assim como vemos as pessoas como queremos; boas, más, educadas, inconvenientes.

Como num longo sonho o cérebro está trabalhando para criar o mundo. Assim como está trabalhando para nos refutar qualquer pensamento de que aquele mundo e irreal. “Não tinha esta pessoa morrido anos atrás? Mas estou a vendo. Estamos conversando e bebendo juntos. Posso tocá-la”. “Fulana diz que sou feio. Mas estou me vendo no espelho, os traços limpos e agradáveis, a simetria do todo. Sinto prazer em me ver”. Reforço que isso tudo deve ser inconsciente e que, portanto, o exemplo do céu não é aplicável, provavelmente porque crescemos ouvindo sobre o azul do céu. Mas quando algo que não conhecemos nos aparece, cada um julga como quer.

Enfim, isto é tudo que tenho até o momento, pois como sabem não sou psicanalista ou nada parecido para analisar o assunto mais profundamente.

- Magnífico! – disse o inglês terminando o café.
- Discordo! – retrucou Palermino - Não faz nenhum sentido - No que tornou o inglês:
- E o que me diz da Mariana, aquela graciosa garota que todos adoram?
- Não a suporto! Asseverou com as bochechas cheias.

Osório e o inglês gargalharam uníssonos entreolhando-se confidencialmente.

O Sacrifício da Traição

- Meus filhos me desprezam. Meus filhos me odeiam. Nem notam
a minha presença na sala.
- Vai chorar pra aquela vadia da sua amante!
- Não, Carmen. Com ela eu procuro apenas o prazer físico. O
que me faz continuar a viver. O que me impede de usar uma
faca para matar minha família. Você é quem eu amo. Mesmo
você estando neste pico de ódio, eu a amo. Eu compreendo que
você não entende que eu faço isso para o bem de todos.
- ... ela cai nessa conversa?
- ... cai. É bobinha...

Adeus!

Ouvindo Dial, pensando no que escrever. Sem internet, o desespero chegou. Chegou muito antes. O dia não fora bom. Energia cortada desde manhã, voltou à tarde, mas a internet não voltou. Logo veio a chuva e fez com que o computador se desligasse por duas vezes. A esperança de que o sinal voltasse antes da meia-noite, dois minutos que fosse, ainda perseverava. Olhava os leds. Aquele piscava. Não tinha que piscar. Tinha que ficar estático, mas ele teimava em piscar, de três em três segundos ele acendia e logo apagava. Ele precisava daquilo. Ele sentia que precisava usar um pouco a Internet antes de dormir, antes de se incubar para o dia seguinte. O dia em que tudo voltaria à rotina. Entraria na casa, depois de rondá-la sentaria em uma cadeira fria, pegaria um livro qualquer e leria. Leria automaticamente, segundos depois esquecendo todas as palavras e sentidos. Logo apareceria uma pessoa, andaria para lá, para cá, iria embora e ele nunca mais a veria.

Ele tinha medo de dormir. Não o desgostava o ato de dormir, mas isso apenas significava que estava acabado. Que quando acordasse estaria fadado a voltar àquela rotina, àquela casa, àquelas pessoas. Não queria isso. Esperava que alguém resolvesse isso. Comprasse a casa e dissesse “adeus!”. Neste dia a volta seria mais feliz. Andaria pela rua com um sorriso nos olhos. Olharia para o céu e mesmo este estando nublado e escuro lhe pareceria um belo céu. Melhor que de qualquer outro dia. Mas subitamente cairia uma parede em pé em sua frente, com uma porta dupla no lado esquerdo. E logo a seguiriam outras paredes. À esquerda, à direita, uma coluna atrás e atrás dela outra parede. E ‘bam’, ‘bam’, ‘bam’, cairiam umas atrás das outras. E por final cairia o telhado, mas antes do telhado cairia uma cadeira fria em sua frente. Uma cadeira com tiras de couro e fivelas nos pés frontais. Duas mulheres com as feições lavadas o pegariam bruscamente pelos braços e o sentariam na cadeira, afivelando as tiras de couro ao redor de suas pernas. Apertam-se as tiras. Outra mulher com as feições lavadas aparece dando tapinhas na parte de dentro de seu braço, enfiando uma seringa e indo embora. Todas se foram. Ele está sozinho, afivelado à cadeira. E começa a sentir seus olhos se liquefazendo, como se escorressem pelo rosto, lentamente. A visão turvando-se. Suas pernas se fundindo às pernas da cadeira. Sente-se todo se fundindo a cadeira, até serem um só. E o livro que antes lia, Dom Casmurro, está agora em cima da cadeira. Em cima dele. Posicionado casualmente em diagonal. A ponta do marca páginas aparecendo no topo. E uma mão o pegando. E duas nádegas jogando-se contra o assento da cadeira. Contra ele. Enormes. Crescendo. Assombrando. Sentam-se enfim, deformando o assento da cadeira. E sufocando-o. O ar não vem. Nada mais vem. Apenas o desespero. Este chega logo junto da escuridão.

Cai no chão e parece se alimentar do ar. Puxa o ar com as mãos direto para a boca. E a cada colherada segue uma tosse funda, longa e por final água cuspida. Muita água. Uma bacia de água. E então, se recuperando, tem tempo para olhar o local ao seu redor. Escuro, com paredes negras salpicadas de gotas cinzas. Não acha o teto, que sobe junto com as paredes até a escuridão. Pensa em gritar. E grita, grita um silêncio porque sua voz não veio. Ao invés disso sua mandíbula continua se abrindo. E abrindo. E ele não consegue parar. Até sua pele começar a rasgar-se e por fim sua mandíbula cair no chão. Um pedaço de escassa carne recheada com um osso, dentes saindo, uma língua torcida. Pode ver o cavanhaque no queixo sem dono. E vermes. Sim, vermes. Saem da carne. Entram de novo. Contorcem-se. Agora seu braço começa a ceder. Novamente a pele se rasga. Cai o braço. Mais vermes. Parecem se multiplicar. E a tampa se abre. Do teto passa a luz que o cega e logo uma enorme cabeça bloqueia o centro da luz. “Adeus!”, diz a cabeça em uma voz ecoante.
A tampa se fecha e a escuridão aparece. Logo, longas labaredas de fogo brotam do chão. Multiplicam-se. Escalam as paredes até o teto longínquo. Crescem debaixo de seus pés. Queimam a mandíbula abandonada. Fazendo a pele borbulhar e os vermes moverem-se com frenesi. Pedaços de parede ardentes caem sobre ele. Buracos se abrem no chão e o fazem ceder. Neste momento passa pelos retalhos das paredes a voz ecoada mais uma vez. Pela última vez. “Adeus!”.

domingo, 2 de setembro de 2007

Sem Destino

As folhas caindo das árvores e uma delas cai no carrinho de
mão de um velho. Uma garota cruzava com ele e olha a folha
dentro do carrinho com curiosidade. Olha as folhas ainda
caindo e pensa que aquela folha caiu casualmente ali, e que
o velho, louco e cego, não percebeu, nem perceberia.

Louco e cego andava, com os olhos no além, nunca no aquém,
anda sem destino, como todos os sem destino, conhece o
caminho de cor. Uma curva aqui, outra ali, uma ponte passada,
uma esquina virada, segue mais quinhentos quilômetros e
chegou, a qualquer lugar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Saudade II

Me lembro do tempo em que sentia saudades de você.
Era um sentimento forte; devastador.
Sinto saudade de ter saudade de você.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Johnny Cash - Hurt

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Lesma e os Fetichistas

E aqui está o nosso protagonista, uma lesma, cruzando um passadiço de concreto que corta o gramado do parque. Quando estava quase chegando ao outro lado onde procuraria um par para copular, um casal de fetichistas atravessa seu caminho. Depois de observado por longos três segundos, nosso protagonista fica imóvel pelo medo. Estão, um belo sapato de salto alto vermelho de bico fino eleva-se vinte centímetros acima de sua cabeça gelada e escorregadia e com o furor do tesão esmaga nosso herói em uma fração de segundos.

[pausa para luto]

Dezoito anos depois o filho do casal de fetichistas assassinos, enquanto dirigia rumo a praia, na mesma fração de segundos em que nosso finado herói morreu, o garoto foi esmagado dentro de seu carro a duzentos quilômetros por hora por um caminhão que transportava gado.
Pobres bovinos.

13/08/07 - 14:33

Loucos

Os loucos são loucos pois sentem a necessidade de fingirem-se de loucos. Se não sentissem tal vontade não seriam loucos. Ora! Está claro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Juntos

Foi encontrada pendurada com a corda no pescoço. Exatamente no meio do quarto, pendendo abaixo do buraco da lâmpada no teto. A polícia fazia o cerco na porta do quarto afastando os curiosos. No chão estava uma criatura, clamando "não!"repetida e pausadamente. Um garoto de mesma idade, com lágrimas dos olhos ao chão. Dizia ao carpete que podia ter evitado aquilo, que era sua culpa. Ela estava grávida, como saberiam todos depois. E ele fora embora. Não era seu filho. Nem ao menos sabia que ela estava grávida. A dois dias ele se fora; cansado; não aguentava mais. Sabia que a saudade seria a beira do insuportável; mas já estava beirando o insuportável ao seu lado.

Não eram nada. Apenas amigos. Não tinham nada em comum. Apenas carregavam um os problemas do outro.

O garoto continuava prostrado de joelhos no chão, chorando copiosamente. Cabeça caída. Sentia a dor da saudade eterna. E subita a dor aumentou perceptivelmente. Não era mais a dor da saudade. A voz lhe sumia gradualmente, engolfada pela dor do coração hiperpulsante. "Parece ter dormido" pensaram alguns. O coração parou. Seguiria agora ao outro mundo junto dela. Ou, se este for o único mundo, seguiriam juntos ao esquecimento.

Dicotomia

Escrito em uma casa vazia,

Cheia apenas de pensamentos,

Memórias e nostalgia.

Morte

Morte. Não é um homem ou uma mulher. Não é humano. Não é uma personagem de quadrinhos. Não é um esqueleto londrino bem vestido. Não é bom, não é mau. Morte é um instante. Um instante depois de o último suspiro de um ser vivo. Um milionésimo de um segundo. É isso que alguns chamam morte. Outros chamam muerte ou décès ou trauerfall.
Vamos seguir este instante. Vou tentar mostrar como é este instante.

A morte aconteceu, ou passou, neste momento na Rússia onde trinta e cinco pessoas estavam dentro de um ônibus enquanto este capotava morro abaixo. Passou agora pela Itália onde um garoto caiu em um rio e um homem idoso estava encolhido em um beco gelado. Passou também pela Colômbia onde tinha quatro pessoas, duas mulheres, um homem e um francês que era um dos mais ricos daquele país. Agora está passando por São Paulo, no Brasil, onde em uma pequena casa tinha uma mulher e uma garota de cinco anos. Bom, com certeza uma sentiria falta da outra e vice-versa, e de fato uma está sendo sentida agora mesmo. Mas não direi qual para poupar-lhe. Na verdade já faz alguns minutos que a morte aconteceu aqui. Eu é que me demorei a relatar.

Enfim. Morte acontece em todos os lugares, em diferentes milionésimos de segundos. Não se pode prever. Simplesmente v

O começo da Modernização

Aquele homem e aquela mulher vivem em uma cabana a cinco minutos de um rio. Todos os dias ele ou ela seguem para o rio e colhem algumas poucas mangas nas árvores próximas. Um certo dia um homem aparece, colhe todas as mangas e diz:
"Escutem! Estas mangas agora são minhas. Tenho-as em posse. Se quiserem possuí-las também, paguem-me. Como sei que não têm como pagar aceitarei que trabalhem para mim colhendo mangas. E assim poderão levar uma manga para casa após o dia de trabalho. É o certo."
E assim foi feito.


Ah! Admirável mundo novo!

Disparates

Você iria a uma praia de nudismo? - perguntou o outro,travesso, com um sorriso nos lábios grossos. Depois de umtempo o encarando, responde o um - Não. - Você pareceu exitar na resposta - sorriu mais ainda,arqueando os lábios borrachudos. - Estava o imaginando sem roupas - respondeu mostrando osdentes troceiros. - Espero ter achado tão engraçado quanto eu o achei, quandoo imaginei sem roupas - disse com o êxtase a mostra, olhossaltados, pensando-se vencedor.A resposta demorou. Estava-lhe perscrutando a face, cadadetalhe, em busca de algo. E o achou. - Tens bonitas sobrancelhas. Invejo-te por isso - disse emum sincero sorriso.O outro perdeu o sorriso, abriu a boca e pasmou... Virou orosto de repelão e foi-se por onde veio.

domingo, 22 de julho de 2007

Misericórdia

Ano 3070 e alguma coisa. Um homem de jaleco branco entra por uma porta seguido por outro homem. Ele começa a explicar coisas sobre o local. Para a frente de uma cama coberta por uma espécie de tampa de vidro. Dentro, um rapaz adormecido.

- Este rapaz terá sonhos eternos. Ele teve muitos problemas na vida. Não merecia ficar vendo tudo aquilo que acontecia no mundo. Então ele resolveu ter sonhos eternos.
- Mas como é feito isso?
- Uh! Descobrimos que algumas substâncias, quando liberadas no sangue, causavam mal-estar. Causando assim pesadelos, sonhos desagradáveis. Nós liberamos, apenas quando necessário, uma substância que anula os efeitos da primeira. E mantemos ele em um sono profundo. Ele recebe, em tempo integral, uma terceira substância que o mantém dormindo. Mas veja vem, que ele não vai morrer por causa da substância. Pois ela apenas o deixa dormindo.
- E como vocês sabem quando injetar a tal substância que anula os efeitos? Não pode haver erros?
- Não! Não, não. Veja, é tudo automatizado. O sangue é puxado de uma veia determinada, passa por uma máquina que analisa o sangue, e quando é detectada a substância, imediatamente é injetada a contra-substância poucos milímetros a frente, na mesma veia. O mesmo sangue que sai, volta para a mesma veia. Não tendo o perigo de necrose por falta de irrigação. Por estar isolado, ele Não pega nenhuma doença. Morrerá de morte natural.
- Não tem perigo de acordar?
- Absolutamente. Então vamos fechar negócio?
- Hum. Está bem.
- Muito bem. Muito bem. Ótima escolha senhor. Sabe que com esse projeto o número de suicídios baixou?
- Mesmo?
- Sim, sim. É uma grande notícia. Eu uma vez li que...

Os dois saem por outra porta e o silêncio impera no local.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A Força do Pensamento

Desceu do trem com roupas comuns e sem luxo, com seus sapatos gastos e passou os olhos ao redor procurando por alguém conhecido.

O primeiro a lhe notar foi Sebastian. E logo pensou "essa não!". O que faz essa rapina aqui? Espero que não me veja.
Droga! Tarde demais.

Vera, era seu nome, abriu um sorriso e partiu ao seu encontro.

- Olá, Sebastian. Que coincidência lhe encontrar aqui.
- Sim, imagino.

Sentaram um a frente do outro ao redor de uma mesinha e ela começou a tagarelar incessantemente.
Enquanto a ouvia, Sebastian pensava:

"Rapina maldita! Deve estar querendo limpar minha carteira de novo. Não tenho dúvidas, veja como ela está vestida. Mas será que ela é realmente mesquinha e egoísta? Talvez seja apenas uma menina de vida sofrida, lutando pela sobrevivência. Eu tenho muito dinheiro, realmente não me importaria em compartilhar um pouco com ela. Talvez assim ela se tornasse a mulher gentil e adorável que devia ser. Será mesmo? Pensando bem... Eu nunca a vi sendo sincera. Sempre mentindo, nenhum gesto de altruísmo, sempre aquelas palavras sujas pingando da boca, vomitando suas insinceridades. E se ela me aprisionar? Se me obrigar a pajeá-la com meu dinheiro? Ela deve conhecer alguns fatos vergonhosos do meu passado, das minhas noitadas na juventude. Não tenho dúvidas de que irá usá-los contra mim, é do seu feitio. Serei obrigado a me casar com ela. Ficarei preso eternamente sob suas garras sujas de carniça. Sou um homem respeitado, não posso me sujeitar a isso. Não! Nunca! Mas o que fazer?! O que?!"

Pensando isso, Sebastian arregala os olhos, avança sobre a mesa, pula sobre Vera gritando "vou matá-la!" enquanto a estrangula. Diante daquela ridícula cena, com um homem deitado na mesa gritando incoerências enquanto sufoca uma mulher e outros homens tentando o impedir, aparecem alguns policiais e o prendem por tentativa de homicídio.

domingo, 24 de junho de 2007

Livre de Preocupações

Um homem está em pé dentro do ônibus lotado, voltando de seu emprego. Cabeça baixa, parecendo desanimado. Dentro de sua cabeça uma confusão, muitas idéias.

Talvez esteja desanimado porque não goste do emprego que tem. Ou talvez por causa do salário baixíssimo. Talvez tenha problemas em casa. Com a esposa. Com a filha. Não. Em sua casa estão todos convivendo muito bem. Deve ser mesmo problema econômico. É muito mais comum. Ele está olhando agora pela janela. Olhando todas as pessoas que passam. As casas e os carros. Alguma coisa o faz virar a cabeça para não perder de vista. Crianças de rua. Mendigando. Talvez esteja pensando no salário. Nas dívidas que continuam aumentando. Talvez pense que logo vai ser despejado da casa que aluga por não poder pagar aluguel. E que talvez sua família logo esteja junto àquelas crianças que acabara de ver. E não há nada que ele possa fazer.

A viagem é longa e cansativa, fazendo-o pegar no sono mesmo de pé.Ele se encontra logo no começo do ônibus. De frente para o vidro frontal. De onde pode ver o motorista.Está ali apenas porque o ônibus está tão lotado que nem passar pelo cobrador conseguiu ainda.

Este lugar não é muito bom. É perigoso demais. E especialmente para ele.Pois em uma fração de segundo, seu sono é perturbado por uma freada brusca. O ônibus bate e para.Ele não. Ele continua indo em frente, passando pelo vidro, por cima de um carro e finalmente aterrissando dolorosamente no chão.Com o susto, todos se levantam e começam a falar juntos. A primeira ação do motorista é olhar para trás para ver a situação dos passageiros. Todos aflitos. Alguns reclamando do motorista. Ninguém havia percebido, que mais à frente, fora do ônibus, havia um corpo imóvel no chão. Nem mesmo o motorista.

Mas pouco tempo depois, ele nota o estado do vidro. Demora um pouco para perceber que alguma coisa atravessou o vidro e fez com que ficasse desse jeito. Mas enfim percebeu, e começou a procurar, passando os olhos em toda a extensão à frente. Foi quando encontrou o homem ferido. Imediatamente soltou o seu cinto de segurança, que foi a única coisa que evitou que ele se juntasse ao homem estendido no chão, e correu para fora do ônibus.

Motoristas de ônibus costumam ter treinamento em primeiros socorros para situações como está. Nem todos davam muita importância para o treinamento por achar que nunca precisariam dele. E, naquele momento, ele se sentiu com sorte por ser um dos que fez o treinamento corretamente. Assim pôde colocar os dedos no lado esquerdo do pescoço do homem e perceber que... ele estava morto.

domingo, 3 de junho de 2007

SM

Chegava em casa de madrugada com a camisa e as mãos ensanguentadas por causa dos desmembramentos, e a primeira coisa que fazia era sentar-se na frente do tabuleiro de xadrez, pensar e fazer um movimento com uma peça.

Ele era o dominante.

Depois tirava a roupa, colocava na máquina, se banhava e ia dormir.De manhã sentava-se do outro lado da mesa enquanto tomava café, pensava, movia um cavalo.

Ele era o dominado.

Quando voltava do trabalho tirava a roupa da máquina, colocava na secadora, olhava para o céu por um minuto... e saía para caçar.

Saindo da escola

O professor de física entrou no largo corredor e começou a andar.

No chão, uma garota sentada o observava sorrindo bobamente e sentindo o gosto remanescente do suco de maçã em sua boca.

O professor vira um pouco o rosto, sorri e continua andando solenemente.

A garota, que já estava sorrindo, continua a sorrir mas sem tirar os olhos do professor, até que ele entra na sala e fecha a porta.

A garota continua olhando para a porta sorrindo e provando o gosto do suco de maçã.

Dez anos depois ela luta para atender os pedidos na lanchonete O Amarelinho.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Crime e Pecado

uma mulher assusta e intriga
uma cidade local...

.............................................vários relatos chegaram
.............................................à polícia local de que
.............................................uma mulher...

aparentemente ela ataca
mulheres e garotas...

.............................................corta-lhes o cabelo
.............................................e depois foge...

a polícia alega que os
alvos são garotas e
mulheres com os cabelos
"bem cuidados". Isso mesmo...

.............................................o incêndio no bosque
.............................................Jaguariumbi foi controlado
.............................................esta tarde...

o início foi de uma fogueira
clandestina...

.............................................os investigadores acharam
.............................................vestígios de que alguém
.............................................estava no centro da fogueira...

a vítima estava envolvida
com o que parece ser
cabelos humanos...

.............................................serão feitos testes
.............................................para ser determinado se
.............................................o cabelo era...

ontem a madrugada mais
fria do ano. Hoje máxima
de sete graus...

domingo, 27 de maio de 2007

Extrato de A.A.

Como se tivesse sido desenhada a sua frente ela põem-se a correr. E entre risos, gritinhos e gracejos o instiga a persegui-la. Ele começa a correr vigorosamente como se sua vida dependesse disso e, sem saber porque, anseia por alcançá-la.

Pisa nas palavras, tropeça nos pontos e vence as exclamações, cada vez chegando mais perto, e mais perto, e ela se deixando alcançar. Ele estica o braço e num rápido virar de páginas ela desaparece. Na brancura cega da página vazia.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Kurenai no Maboroshi [紅の幻]

Não bastasse a falta de eletricidade por causa do atraso em pagar a conta, o apartamento ficava em uma parte escondida do prédio, não lhe permitindo acesso a luz solar. Nesta penumbra vive Jonas Maldique, um escritor fracassado em luta pelo reconhecimento de sua obra. Já não recebe a semanas e tudo que faz agora é dormir por todo o dia embriagado em sua depressão. A dois dias tudo que estava em sua pequena geladeira de solteiro se estragou, apenas contribuindo para seu enfraquecimento moral e físico. Mal podia pensar, tamanho era o cansaço.

O prédio onde habita é muito peculiar. Alto, muito alto, com muitos minúsculos apartamentos por andar. O andar em que morava era um dos mais altos, décimo quinto, havendo apenas mais dois acima deste. Nessa altura o barulho da rua era praticamente nulo. E analisando melhor, o prédio inteiro era um completo silêncio, como o interior de uma tumba. Não haviam vizinhos barulhentos assistindo a televisão; não haviam passos indo e vindo no andar superior; nem crianças brincando no corredor. Pobres das crianças que fossem obrigadas a morar aqui. Aliás, pobres são todos os que devem morar aqui, pois não imagino descrição melhor para os habitantes deste horrível prédio. E pobre é Jonas Maldique, que nestes minutos passados estava pensando porque será que este prédio, com tantos apartamentos, e possivelmente tantas pessoas, era tão silêncioso. Nunca ele havia escutado um barulho que fosse. Talvez todos ali estivessem como ele, eternamente dormentes. Não lhe surpreenderia isso. Não lhe surpreenderia que todos ali estivessem apenas esperando pela morte. Que ninguém sairia mais daquele prédio se não fosse dentro de um saco plástico. E que provavelmente ele seria mais um dentre todos esses.

Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos abruptamente quando algo lhe acertou a testa fazendo-o piscar algumas vezes instintivamente e o libertanto do transe hipnótico em que ele mesmo se colocara. Estranhou primeiramente que mesmo estando a tantos dias deitado naquela cama, olhando aquele teto não havia percebido aquilo. Uma goteira? Bem em cima de minha cama? Isso não parece certo. O que é isto?

Ainda aturdido por seus pensamentos e por sua fraqueza demorou a perceber a aparente macha negra sobre si. Uma mancha que se estendia por quase um metro de comprimento e meio de largura. E uma minúscula fração daquela mancha havia caído sobre ele em forma de gota. Uma pesada gota que o despertou de seus sonhos. Não. Isto não é uma goteira comum. Será vazamento de esgoto? Sem nenhuma dúvida pode se sentir um cheiro. A gota, assim que se rompeu, exalou o seu malcheiro. Mas este não parece ser o fedor seco e abafado de esgoto.

Será mesmo?! Algo tão insólito quanto isto pode estar acontecendo? Com ninguém mais que este coitado que já agoniza seus últimos e tão próximos momentos finais?

Jonas teve força suficiente para arregalar os olhos, como que para ver melhor, como que para demonstrar sua surpresa para as paredes da casa. Quando uma segunda gota começa a se formar, e logo estando pesada o suficiente se desprende da mancha levando um pouco de sua essência, e Jonas grita. Grita grave e demoradamente, até as horas passarem e a gota lhe acertar. Ainda com os olhos (agora) fechados, é sangue, sussurra. Quem não perceberia este cheiro. E quando corajosamente abre os olhos, percebe que estranhamente a mancha antes negra agora assume um tom escuro de vermelho. Ele tenta se levantar antes da terceira gota se formar mas não consegue. E não entende porque, seu corpo parece de chumbo, um peso incrível pousa em seus braços e pernas. Falha até mesmo em se arrastar. Grandissíssimo é o esforço que ele faz para virar a cabeça, mas nem isso ele consegue. Devia ter tentado sair antes, desperdiçou suas forças em um grito inútil, e agora está fadado a tortura.

Quanto tempo já se passou? Um dia, uma semana, semanas? Não se sabe. A escuridão do quarto/branheiro é eterna. Dias passam sem serem percebidos. Quanto tempo ficarei aqui?, pergunta. Já se passaram quantos anos?

Seu corpo magro e desnutrido afunda na cama; seu rosto cansado e sua camisa respingados de sangue; seu colchão encharcado de flúidos; e o fedor que prevalece no ar, sendo respirado eternamente. Eternamente. Eternamente...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

É a vida I

Nossa "história" conta a história de um herói. Como muitos costumam dizer, os verdadeiros heróis sãos bombeiros e etc. Mas vamos nos ater aos bombeiros. Em um particular bombeiro. O bombeiro 3553. E como toda história (boa ou ruim) precisa de um vilão, temos um. Mas quem será o vilão desta história? O Incendiário X. Um criminoso inescrupuloso. Ele odeia tudo, principalmente os bombeiros. Constantemente se lembra do seu passado dolorido. Sua casa. O fogo que a consumiu. E os bombeiros parados sem fazer nada enquanto seus pais esturricavam. Como podem ser chamados de heróis esses tipos? Por isso, o Incendiário X queima casas, apartamentos e qualquer coisa que esteja no caminho. Sempre odiando a tudo. Mas principalmente, odiando os bombeiros. Malditos bombeiros, diz ele. Como alguém pode ter tanto ódio assim?

E é aqui que acaba a nossa história, quando o Incendiário X foi encontrado em seu apartamento, morto. Causa: ataque cardíaco. Não é de se surpreender. Tanto ódio assim, por tanto tempo, não podia acontecer outra coisa. Ainda mais que ele estava na idade de risco. Mas parece que não foi apenas de ódio que ele morreu. Os detetives encontraram muitos pacotes de coxinha de frango congeladas. Com tanto ódio e tantos planos incendiários ele não tinha tempo para cozinhar algo mais saudável.

Então, mais uma vez o bem triunfou sobre o mal (ignoramos aqui o fato de que o bombeiro 3553 traficava heroína). E agora só existem alguns pequenos incendiários aqui e ali. Mas nada com que devemos nos preocupar. Isso é comum. O que importa é que essa estória é real. Nada de heróis fantasiosos, mundos paralelos e essas mentiras. Só a verdade.

E nossa próxima história será sobre o cãozinho que deixou deser herói quando não salvou seu dono de ser atropelado por um jipe do exercíto dirigido por um militar bêbado.

Aguarde!


17/5/2007 18:28

sábado, 12 de maio de 2007

bah

Hoje vi algo impressionante. Uma criatura carregando, com as mandíbulas, outra criatura com pelo menos três vezes mais o tamanho de si por um mar de pedras de 5, 10, talvez 15 quilômetros! Não bastasse isso, a criatura percorreu a distância toda de costas! Conhece fato mais hercúleo que este? Deviam dá-la o prêmio Guinness World Records.

- Cala tua boca, criança tosca, que estou a ver novela!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Cultura Popular

Um carro preto de repente parou no meio da rua fazendo com que os outros atrás também parassem e que alguns transeuntes o olhassem. Baixa-se então o vidro do tal carro e uma mão branca aparece acenando para que passem-no. O último dos carro, um cor vinho, enquanto passa, toca a buzina e levanta a mão o motorista fazendo um gesto que não se sabe ao certo o que dizia. Vendo isso, o primeiro motorista, o do carro preto, se enfurece e grita alguns nomes chulos. Antes que terminasse de praguejar nota que o carro vinho parou e dele saiu um homem com seus quarenta e tantos anos, já com cabelos grisalhos. Este, dirigindo-se ao blasfemador, diz "Olá, camarada. Sinto muito se me compreendeste mal. O sinal que fiz a ti era simplesmente um aceno em agradecimento pela bondade de o senhor ter nos orientado, sem perder tempo, de que se demoraria e que deveríamos seguir contornando-o, e a buzina foi apenas para o meu aceno não lhe passar desapercebido, embora admito não ser este um motivo muito convincente para o uso de tão irritante instrumento. Sem mais o que dizer me despeço do compreensivo senhor."

E mais uma briga de trânsito, e porque não uma possível morte desnecessária, foram evitadas. Antes assim fossem todos os cidadãos desta cidade. Mas enquando eu escrevia e você lia esta última frase o motorista do carro preto emparelhou-se com o carro cor vinho, que ainda estava parado, e disse "O senhor não me venha a fiar esta conversa de grego, que é pior que os presentes destes, e ficar a troçar de minha paciência, pois tenho uma ótima vista e mesmo não tendo certeza do que vi, sei que vi, ainda que não sabendo o que significa. Pois saiba que não aturarei escárnio que me tenha por alvo." e mirando a cabeça do outro com um calibre 38, que é famoso por seu tamanho diminuto e por seu facílimo manuseio, lançou-lhe um projétil que alojou-se entre uma vista e outra do agora defunto, e saiu com os pneus a cantar.

Tivemos sim uma morte desnecessária, se é isto que estás pensando, mas entretanto não podemos nos queixar do quão articulados são os cidadãos desta cidade.

10/05/07 - 16:45

domingo, 6 de maio de 2007

Fiel

5 de fevereiro - Sra. Mirna, estou lhe enviando o dinheiro combinado. Por favor arrume a casa. Iremos, talvez, neste fim de semana. Obrigado

11 de março - Olá, Sra. Mirna. Como está o seu filho? Iremos nesta sexta-feira, se Deus quiser. O dinheiro está no envelope como sempre. Muito obrigado.

7 de abril - Sra. Mirna, obrigado pela ajuda. No envelope está o seu último cheque. Não voltaremos mais a esta casa. Estamos todos mortos. Obrigado.

05/05/07 - 11:15

sexta-feira, 4 de maio de 2007

A Mosuca

Entrou em desespero quando sentiu
todas aquelas moscas pousando em seu rosto.
Debatia-se, estapeava-se e nada adiantava.
Elas iam e vinham. Umas atrás das outras.
Debatia-se mas não podia se mover.
Estava preso dentro de um corpo inerte.

A tampa foi posta. Ficaria,
agora, sozinho com a eternidade.

[baseado em O MORITURO de Mario Quintana]

02/05/07 - 12:20

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Vazio

No que parece ser o interior de uma fábrica...

- Não!
   Mas eu pensei..que você...
   Nãão! Nãão!
   Vazio! Vazio!
   Não.
   Enche! Me eenche!
   AAAAA!



   ...aaaaa!

E os gritos repetitivos continuam ecoando, cada vez mais longe. A verdade é que nós é que estamos nos afastando.

30/04/07 - 02:02

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Isto é um desabafo!

Hunf.

Plágio

"Like a girl in the bed."

terça-feira, 3 de abril de 2007

Quem Diria!?

 - Meu marido está em coma.
 - ...
 - Há 7 anos.
 - ...
 - Eu ainda tenho esperança de que ele irá acordar e tudo voltará ao normal.
 - ...
 - Todos os dias eu vou visitá-lo e conversar com ele.
 - ...

 Trim... Trim...

 - Com Licença
 - ...
 - Hum. Hum. Uhum. Ok
 - ...
 - Era do hospital.
 - ...
 - Meu marido acaba de morrer.
 - ...
 - Bom, eu tenho que ir.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Hito no Taiseki



- Hey! What're you looking down there.
- S-Sorry ma'am. I was just trying to look up.
- Well, stop it!
- D'you know what's there on the top?
- I dunno. That's what we all are trying to know.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Maputo da Terra

Este é Maputo. Ele não tem familia.
Nasceu da terra, vagou pelo país e morreu na terra.
Ele é um quiabo.

voa

Atenção passageiros do vôo com destino a paris, o vôo com destino a Nova Zelândia já partiu.

sábado, 10 de março de 2007

Na Cidade

Na cidade barulhos são comuns.
Ninguém liga.
É a televisão estalando sob o sol.
Os carros passando pela avenida.
Os bebês chorando nas casas.
Os alarmes dos carros disparando na madrugada.
As sirenes correndo pela cidade.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Frutas Podres

 - E aí? Gostou da minha casa?
 - Que cheiro é esse?
 - Ah! Eu deixo os restos das frutas nesse cantinho, pra dar um aroma.
 - Frutas podres?
 - Aham.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Os Uns, os Dois e os Três

 - Você é 2?
 - Não. Sou 1.
 - Não pode!
 - Porque não?
 - Porque não pode. Porque você  é diferente do ideal. O ideal é saudável.
 - Mas eu sou saudável. Apenas não do jeito que um 2 é.
 - Mas precisa ser. Se perguntar para qualquer doutor ele irá te dizer.
 - Então esses doutores precisavam ser algo como reis universais. Se eles sabem o que é melhor para todos.
 - É deviam.
 - Com licença. Eu vou fazer minhas coisas de 1.
 - Freak! Deviam te internar.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

O Futuro Me Escapa

O futuro é como o ar, quando fechamos a mão ele nos escapa.

Possuído Pelo Demônio

 - Porque fez isso? Porque me largou lá e foi embora com ela?
 - Não sei. Eu estava possuído por um sentimento estranho.
 - Tolo. Agora eu perdi a razão de brigar com você. Mas você terá seu castigo. Demônios não ligam para os outros. Morrerá com um furo no peito. Mas não se preocupe, não haverá sangue, pois ela o terá chupado.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Love Me Do.

 - Me amará para sempre?
 - Te amarei para sempre.
 - Me amará mesmo quando seus fios começarem a desfiar?
 - Te amarei mesmo quando meus fios começarem a desfiar.
 - Me amará mesmo quando estiver sem corda e não houver ninguém para te ajudar?
 - Te amarei mesmo quando estiver sem corda e não houver ninguém para me ajudar.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Emagrecin 2000

Você está cansado desses produtos de emagrecimento milagrosos que prometem te fazer perder 10 quilos em 2 semanas? Pois conheça o novo Emagrecin 2000. Ele te fará perder 20 quilos em apenas 1 semana! Num passe de mágica! Veja o antes e depois nestas fotos. Incrível! Não perca tempo, compre já o seu  Emagrecin 2000, por apenas 19 parcelas de $99,99. Mas espere. Se você ligar agora nós te daremos este creme mágico contra celulite e estrias de graça.
Não perca tempo! Ligue já! E você nunca mais terá que se preocupar se os outros te acham gorgo.
Não perca este oferta!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

- Ei! Eu estou sem pessoas.
...
- Onde quer que eu deixe estas?
- Já pode pôr na fornalha.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Minhas Pernas e Meu Cérebro

- Seu pai começou a brigar de novo com aquela garçonete.
- É, eu sei. Não sou surdo.
- Já sei até como vai ser isso.
- É. Primeiro reclamam um do outro, depois reclamam dos
outros e por final reclamam de mim.
- E se você se jogasse contra a porta do quarto de cabeça?
- Eu ficaria com a cabeça doendo.
- Sim, mas talvez assim eles parassem.
- Não, a dor de cabeça não valeria a pena. E como é que eu
correria até a porta?
- Eu te ajudava.
- Acho difícil.
- ...
- ...
- Talvez se começar a gritar.
- Eu poderia gritar. Mas será que adiantaria?
- Claro. Eles abririam esta porta rapidinho.
- Mas eu ia virar a atenção. Não quero isso.
- Sabe, não temos muitas escolhas. Se recusar todas não
sobrará nenhuma.
- É, eu sei.
- Escuta! Esta briga parece muito com aquela do seu
aniversário de doze anos.
- Isso foi ontem.
- Verdade. O tempo voa.
- ...
- Eu posso ir derrubar umas panelas na cozinha.
- Não, não pode. Já se esqueceu?
- Não esqueci. Mas eu gostaria de poder derrubar umas
panelas.
- EU gostaria de poder voar.
- Olha! Pararam. Vamos sair.
- Deixa eu pegar minha cadeira. Ei! Idiota. Sempre
atravessando paredes.

Ãn? Ein?

Trim.

- 15ª delegacia de polícia.
- Eu queria fazer uma denúncia. - Disse uma voz de velha.
- Pode falar, senhora.
- Tem duas sombras do outro lado da rua.
- Que tipo de sombras, senhora? - Perguntou o policial em um
tom de estranheza.
- Duas sombras de pessoas.
- E o que estão fazendo?
- Estão tramando algo. E não deve ser bom.
- E como sabe disto, senhora?
- Ora. Duas sombras a essa hora da matina só podem estar
tramando algo.
- Desculpe senhora, mas isto não é o suficiente. Tenha uma
boa noite.

Clique

Um minuto depois:

Trim

- 15ª.
Uma voz de velha imitando um homem diz:
- Alô. Eu moro na rua Jaceguai do outro lado, e do lado de
cá tem umas sombras misteriosas.
- Senhora, eu já disse que não há nada que eu possa fazer.

Clique

- Ora. Policial insolente. Deixar uma velha indefesa nas
mãos de duas sombras maquiavélicas. Vou cuidar disto eu
mesma.

De repente, de uma das casas, sai uma velha com uma faca em
punho gritando:
- Vão embora seus malditos!
Uma das sombras, que a princípio estavam se beijando, vendo
aquilo, solta um grito extremamente estridente. Em seguida,
as duas sombras saem correndo.
Uma vizinha que abriu a janela para ver o que havia
acontecido, quando viu a velha sentada no chão, aturdida,
olhando para os lados como se estivesse perdida, correu para
acudi-la.
- A senhora está bem?
A velha apenas a encarou. Ora um olho, ora o outro.
- Perguntei se está bem. - Repetiu a garota aumentando o
tom de voz.
A velha então, fez uma careta e esbravejou:
- Ora, pare de fazer mímicas na minha frente e fale direito.
- Mas é o que eu estou fazendo! - Gritou a garota.
- Garota safada, sem vergonha. Pare de me atazanar. Não se
faz isso com uma velha...
Só então, a velha percebeu que não podia ouvir a própria voz.
E começou a gritar.
- O que foi? A senhora está bem? - Acudiu a garota.
- Vá embora! Não vê que estou tentando escutar minha voz.
A garota, contrariada, virou as costas e foi em direção a sua
casa quando ouviu outro grito. E por instindo foi correndo
acudir a velha novamente.
- E agora senhora?
- Me largue! Me largue! Já não disse que estou tentando
ouvir minha voz.
- ...Veja, senhora. Está com sangue nos ouvidos.
A velha pôs as mãos nos ouvidos e disse:
- E essa agora. Estou com sangue nos ouvidos.
- A senhora devia ir logo no médico.
- Se não fosse tão tarde iria no médico.
- Vá assim que amanhecer. Tem um médico a duas quadras
daqui. - Disse a garota enquanto apontava para o final da
rua.
- Onde será que teria um médico por aqui?
- Foi o que acabei de dizer! - Gritou a garota.
- Ah. Mas voltou a me arremedar, garota.
- Olha, sua velha caduca, eu não tenho culpa se você ficou
surda. - Disse virando as costas.
Berrando, a velha respondeu:
- Pois eu não escutei nada do que saiu dessa sua boca
fedorenta! Amanhã vou ao médico, e quando voltar a ouvir
você vai se ver comigo! Sua pirralha!

Sentado em uma cadeira o policial falou:
- Continua; sabe-se lá quando.

Para Osugi

Nasty

Yeeehk! Nasty!

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Blábla

- Observe o Obceno
- Tem Times

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Contos do Cotidiano: Branca de Cândida

Branca de Cândida estava passando uma temporada na casa dos
sete gnomos pois sua casa estava sendo pintada.
Um dia bate a sua porta uma mulher com cara de indigente.
- Olá. Que posso fazer pela senhora?
- Olá. Estou vendendo maçãs. Gostaria de uma amostra grátis?
- Não, obrigada. Não precisamos de maçãs agora.
- Mas essas maçãs estão muito boas, experimente. É gratís.
- Eu sei, mas anda um boato por aí que estão distribuindo
maçãs com lâminas infectadas com o HIV.
- Sim, eu ouvi. E este boato está fazendo muito mal pros
meus negócios. Vamos lá, ajude uma pobre velha. Experimente
uma maçã e se gostar te vendo cinco por quinze centavos cada.
- Bem, o preço está bom mas, eu não posso. Sinto muito.
- Ora, vamos. O que uma velha como eu ganharia infectando
pessoas pela rua? Eu preciso ganhar a vida. Se não vender
estas maçãs não terei dinheiro para pagar o gás, a luz,
a água, o aluguel, o condominio, a vaga na garagem.
- Eu realmente sinto muito, mas eu não posso.
"Mas que garota chata. Acho melhor desistir" pensou a velha.
Mas, neste momento, Branca de Cândida se vira e diz:
- Está bem. Deixe-me experimentar uma. Mas se não estiverem
deliciosas vai se ver comigo.
- Pois eu duvido que não goste.
Cândida pega uma maçã da mão da velha senhora, limpa na
camisa e dá uma mordida.
- Ai! O que é isso? Uma lâmina?! Ô, não! Estou infectada. E
agora, o que farei?
Logo, Cândida desmaia no chão.
Assistindo a tudo com um sorriso insano, a velha solta uma
gargalhada pigarrenta e tossida e diz:
- Menina boba! Agora está infectada. O que fará sua tola?
Que principe encantado irá te beijar agora? Ou você vai
esperar pelo médico encantado com a cura?

---

Branca de Cândida, de fato, achou o médico encantado que lhe
curou. Casou-se mais tarde com o dono de um pequeno
restaurante de comida chinesa. Criou um blog e contou para o
mundo sua historia. Logo o sucesso de seu blog foi tão grande
que ela escreveu um livro.

A velha bruxa teve uma série de problemas de saúde como
problemas de coração e pressão alta, quando descobriu que
Branca de Cândida estava melhor que antes, e por isso deixou
a vida de maldades para trás por invalidez.
Casou-se com um lenhador que morava por perto e virou uma
simples dona de casa.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Contos Cotidianos: Chapeuzinho Azul

Era uma vez uma uma menina muito boazinha que todos
amavam.
Ela tinha um chapeuzinho de pena de arara azul que
a deixava encantadora. E por causa deste chapeuzinho todos a
chamavam de chapeuzinho azul.

Um dia sua mãe a chamou e disse:
- Chapeuzinho, leve esta garrafa de vodka e este
miojo para sua avó que está muito deprimida porque seu
avô anda trepando com o limpador da piscina. E não se
esqueça de tomar muito cuidado com os guaxinins
maconheiros que andam pela estrada.
- Sim, mãe.
E lá se foi chapeuzinho azul pela estrada afora.
Quando estava passando perto de um beco alguém a chamou
lá de dentro.
- Ei!
- Quem é?
- Sou eu. Venha logo.
- Ah, é você. Não esperava te ver tão cedo.
- Tem alguma coisa com você? - Perguntou o guaxinin.
Chapeuzinho azul tirou seu chapeuzinho da cabeça, puxou um
fundo falso e tirou de lá um saquinho enrolado.
- Eu só tenho isto.
- Só? Mas isso não vai dar nem pra um dia.
- Ei! Não faz nem três dias que eu te vendi aquele. Se você
não sabe se controlar o problema não é meu. Este aqui vai
custar o dobro.
- O dobro!? Mas porque?
- Porque você já está me enchendo, e porque eu sei que você
precisa.
- Não sei porque me surpreendo; Está bem.
- Até.
- Ei! Aonde você vai agora?
- Vou encontrar umas amigas minhas, arranjei uma garrafa de
vodka.
- Eu falei com o cara. Ele aceitou, mas disse que se você
ficar de rolo, ele vai te dar um pé.
- Até parece que você não me conhece. Te vejo daqui a dois
dias. - Chapeuzinho disse rindo.
- Maldita.


Hoje Sai? Não, não conheço.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

E a Vida Continua

- Hum. Lembra-se daquele pequeno poste do outro lado da rua onde você costuma mijar a oito anos?
- ...
- Diz aqui que ontem a tarde ele caiu na cabeça de uma pessoa. Morreu na hora.
- ...
- Sua urina está muito ácida. Está na hora de mudar de ração.
- ...
- Quer dar uma volta?

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Ô, Crônica dos Infernos 2: O Retorno de Cataqumba

E não é que eu encontrei a madame Cataqumba de novo?
- Ô, madame! Como é que tem tão pouca gente aqui?
- Não é isso, não. É que aqui não tem uma coisa que vocês costumavam chamar de tempo-espaço. Por isso as coisas são assim, meio confusas. Mas nem chega tanta gente assim, não. Isso porque tem um pra cada bairro. O problema é que ninguém vai embora. Por isso tá sempre cheio.
- E quantos são no total?
- Ih! Ninguém aqui tem paciência pra contar isso tudo. Aqui todo mundo é assim mesmo.
- E você não se cança, não?
- É. Apesar de divertido, é cansativo. Sabia que os favoritos do fedentino têm boiada? Ficam de baixo de bairro rico.
- E isso é bom porque?
- Bairro rico tem um a mais, pra dar conta da demanda.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Ô, Crônica dos Infernos

E justo quando eu estava pensando que de agora em diante era só ladeira abaixo, eu encontro em uma bifurcação a madame Cataqumba. E ela logo começou:
- Qual é? Vamo lá! Qual vai ser? Vamo, vamo. Apressa aí. Escolhe logo. Você vai atravessar o oceano ardente de lavas subterrãneas ou o oceano fétido de fezes ácidas?
- Difícil escolha. Hmm.
- Vamo! Se você não escolher logo eu escolho por você. Eu te taco no fosso dos leões bem alimentados.
- Ei! Você não me falou dessa opção.
- Tem sempre outra opção, querido. Eu sou generosa.
- Calma. Leões bem alimentados? Que raio é isso?
- Ué! Eles já comeram e por isso não vão te comer... Eles só vão brincar com você. Mas se você demorar muito, eu te taco lá de tanga.
- Qual a diferença? Minha roupa não é de malha de aço.
- É mais engraçado.
- ... Calma. Eu posso voltar atrás? Alguém já voltou atrás?
- Ninguém pode voltar atrás! E os que voltam ficam loucos.
- Loucos?
- É, loucos. Se 'perdem'. E pra mim loucos são indecisos. E você sabe pra onde vão os indecisos, não?
- Mas qualquer escolha que eu faça eu vou passar por uma dor excruciante! Porque você não injeta uma bolha de ar na minha veia logo?
- Mas criança. A diversão tá no trajeto. Como você acha que eu vou me divertir vendo você caído no chão? Tem que durar algumas horas, semanas. Tem que dar um caldo, né.
- Tá bom, Tá bom. Eu escolho aquele lá. Mas nada de tanga.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Predador

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Segredos

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Prenúncio Fétido

Em um quarto escuro, um silêncio sepulcral. Um raio de luz passa por uma fresta da velha porta de madeira, e pousa sobre um cobertor enrolado, cumprido. Talvez tenha algo mais além do cobertor. De repente, um som horrível corta o ar e...
- Hi hi hi hi. Que fedor.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

O Caso Dúbio

Este homem foi encontrado morto por um tiro de .38 no peito, neste endereço. A Balística definiu que a bala fatal saiu do revolver do dono da casa, que foi preso logo em seguida.

- Mas o que ele foi fazer na casa deste homem? Foi morto na FRENTE da casa.

O caso foi encerrado como homicídio culposo.

- Mas isso ainda está muito estranho. Ele não entrou na casa, e o tiro partiu da área da porta. Não haveria como terem discutido. Ele passou no teste psicológico?
- Sim, senhora.

Mais tarde uma nova evidência foi encontrada na casa da "vítima", em local escondido. Trata-se de uma carta com a caligrafia do "assassino", ameaçando-o de morte.

- Agora sim. Foi um suicídio!
- Mas, senhora. Como suicídio? O tiro foi dado a mais de cinco metros.
- Sim. Mas a carta prova que foi suicídio. Ele recebeu a
ameaça. E ao invés de fugir ou evitar a própria morte... Ele foi de encontro ao assassino. Era como se ele não se importasse em morrer desde que o ameaçador fosse preso. Ele decidiu se suicidar... pelas mãos de outro.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O Tesouro

Três garotos - Pedrinho, Joãozinho, e Juninho - estavam
brincando pela campina quando descobriram uma caverna. Os três
logo resolveram explorar a caverna em busca de aventuras. Um
deles até disse, talvez tenha um tesouro escondido. E
surpreendentemente encontraram um grande baú empoeirado.
Resolveram então abri-lo para ver o que continha nele.
Logo que foi aberto, os três meteram a cabeça dentro do baú
procurando por moedas de ouro e jóias. Sentiram um cheiro
estranho, mas não ligaram para isso. Provavelmente seria mofo.
Porém ao olhar dentro do baú viram algo no mínimo inesperado.
Antes que pudessem vibrar de felicidade pelo achado, os três
subitamente sentiram-se tontos. E desmaiaram.
Inalaram Ácido Cianídrico. E morreram.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

VHEMT

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Surpresa do Destino

Um dia o destino esbarrou naquele homem.
Então lhe disse:
- Tenho uma surpresa para ti.
- O que é?
- Algo que tu esperastes por muito tempo, desde pequeno. Daqui a cinco dias.
E então foi embora, deixando cravado em sua cabeça um prego de curiosidade.
Então, depois de cinco dias, aquele homem sumiu.
Ninguém nunca mais o viu.

- Onde o homem foi, pai?
- Ninguém sabe.
- Ele ficou feliz?
- Só podia. Se esperava por aquilo desde pequeno.

O Samurai

Foi naquela ponte que te encontrei
Você estava debaixo da chuva espessa
Logo percebi o que se passava em sua cabeça
Como pode, alguém como você pensar isso?
Estendi minha mão, e você a recusou

Quem diria que nos encontrariamos novamente
Desta vez, foi você quem estendeu a mão,
E eu a segurei

Na terceira vez que nos encontramos, não foi nada agradável
Fui lhe ver com o pretexto de devolver-lhe algo
Não me agradava vê-la daquele jeito
Atrás daquelas barras de madeira
Mas você não parecia se importar
Eu sabia que no fundo você estava odiando aquilo
Você negava, fingia que tudo estava bem
Mas eu não aceitei aquilo
Tirei-lhe a força, enfrentei a todos que apareceram
Mesmo estando com minhas mãos vazias

Depois fugimos
Corremos até o rio
E te coloquei no barco

Mas eles nos seguiram.
E quando nos alcançaram, soltei o barco.
No tempo de dois riscos no ar, nos despedimos.

Você cercada por água.
E eu cercado por sangue.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

The Rat

Play with the corpse.

domingo, 10 de dezembro de 2006

---

Ele está fazendo sua cama momentos antes de dormir, quando percebeu um vulto atravessando a porta fechada.
- Julia? - Diz, a reconhecendo - O que... está fazendo aqui?
- Você estava pensando em mim. Não estava?
- E-Eu... Mas...
- Eu morri.
- ...
- Uma vez eu ouvi dizer que quando pensamos em alguém que já morreu, nós o atraímos. Parece que tem um fundo de verdade nisso.
- Estranho. Eu não pensava em você a tempos. Justamente hoje eu pensei. - Diz com um sorriso tímido.

Sobre o papel, ele para de escrever sua história, levanta a cabeça lentamente e percebe a imagem de Julia o observando. Ele esboça um sorriso e levanta a folha mostrando o que ele acabara de escrever. Uma coincidência!
Julia Sorri de volta, balança a cabeça lentamente concordando e acena se despedindo.
Apenas uma piscada de olho e ela some.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Formigas

Era uma vez um homem que não achava certo matar formigas ou qualquer animal.
Ele não matava os ratos e baratas de sua casa. Ele apenas os botava para fora.
Um dia ele começou a pensar na quantidade de formigas que existiam no mundo. E
de como elas estava em todos os lugares. Percebeu que na rua existiam bilhões
de formigas, todas andando pelo chão. Percebeu também que quando as pessoas andavam
nas ruas deviam matar centenas de formigas. A cada passo uma carnificina.
Começou a pensar como seria estar no lugar delas:
Pela manhã sai à rua para trabalhar. E em uma fração de segundo ele e seus colegas
são esmagados por algo gigantesco. Vida curta seria esta.
Isso começou a preocupa-lo demais. Não pensava em outra coisa senão nas pobres formigas.
Começou a ter pesadelos. E se enquanto estiver andando pela sua casa pisar em alguma
formiga?
Que fará? Como evitará isso? Não pode, elas são muitas. E todas tão pequenas que não poderia
vê-las a menos que andasse com o nariz no chão. Até que pensou que o único modo de não matar
nenhuma formiga era morrendo. Ou se matando. Mas mesmo se acertasse um tiro em si mesmo poderia matar algumas formigas quando despencasse no chão. Facas também não o ajudariam.
Passou alguns dias imóvel tentando evitar qualquer movimento que pudesse matar alguma formiga.
Até o dia em que pensou em uma forma de não matar nenhum ser vivo. Comprou un desses ganchos usados por pugilistas para prender seus sacos de areia no teto e instalou-o em sua casa.
Passou uma corda por ele e fez o laço. Tapou seus olhos, narinas, ouvidos e boca com um
esparadrapo bem forte para assim evitar que qualquer inseto pudesse entrar e acabar morrendo.
Enfim, passou o laço no pescoço e deixou-se perdurar.

Entretanto, um enforcamento não era como ele esperava. E a agonia e a dor que ele sentia eram
tantos que acabou por afrouxar alguns esparadrapos. E com isso resolveu afrouxar também o laço ao redor de seu pescoço. Com a boca descoberta, como poderia ele ter certeza de que não mataria nenhum inseto?
Voltou a sua posição anterior, com os braços ao redor das pernas. Segurando bem forte para não
move-las. Sentado no meio da sala. Imóvel. Apenas respirando. Quando pensou algo.
Na áqua não existem insetos. Não tem como ele matar insetos estando na água. Por alguns minutos ele esboçou um sorriso decadente no rosto. Mas não duraria muito. Estava longe do mar, ou de qualquer rio. Não havia nenhuma reserva natural de água por perto. E mais uma vez seu plano falhou.

Ele só foi descoberto um mês mais tarde. Quando vieram lhe cobrar o aluguel atrasado da casa.
E mesmo assim, o encontraram na mesma posição em que ele estava antes. Segurando suas pernas, com tal força que parecia vivo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

O Dia em Que a Terra Foi Limpa

Começou com uma garoa fina, caindo displicentemente. Com o passar dos dias a chuva começou a ficar mais forte. Era interminável. Continuou por semanas, meses; sempre na mesma intensidade. Durou tanto tempo que, certo dia encobrio os animais nas ruas. Depois as pessoas. As Casas e os prédios. Nem mesmo o mais alto dos castelos, na mais alta das monhtanhas escapou. Choveu tanto que já não existia mais terra. Era apenas um imenso oceano.
E foi assim que o planeta foi limpo. No ano de... Você não espera que eu diga o ano, não é? Não, não. Este é o maior segredo do universo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Sonhos

Eu sai dos seus sonhos pra te dizer que você não pode mais sonhar
É isso que você ganha de aniversário
É isso que você ganha sendo adulta
Quanto mais você sonhar, mais você vai se machucar
Então é melhor parar agora enquanto pode
Antes que não consiga mais sair dos seus sonhos
E se torne algo como eu
Alguém que vive nos sonhos dos outros

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Altruísta ou Maníaco?

- Sabe aquela sensação de quando você ouve um cara falando:
"Eu vou levar um refém comigo" e você sai correndo e grita:
"Me escolhe! Me escolhe!"?
- Altruísmo insano?
- Não. Maníaco depressivo. =)

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Figura Disforme

Na escuridão da noite
Um silêncio profundo
Nenhuma pessoa
Nenhum carro

Nenhum pássaro ou coruja,
Ousa fazer um mínimo ruído.
Todos observam atentamente
A figura disforme
Esperando seu próximo passo.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Sangue 4

Uma música tocando, parece não ser notada. Na mesma sala várias pessoas trabalhando. Levanta. Senta. Anda pra lá. Anda pra cá. Lê. Faz careta. Amassa a folha.

De repente a música para. E junto, todos param o que estavam fazendo. Todos juntos olham para uma caixa de som junto ao teto, de onde parecia sair a música. E logo depois todos olham para uma porta no final da sala.

Durante alguns segundos houve um completo silêncio. Então, subitamente todos se levantam, pegam seus casacos, bolsas, pastas e caminham em direção a uma outra porta. O último, quando estava prestes a sair, pega um telefone próximo a porta e disca alguns números. Ficou algum tempo mudo, desligou e saiu. Mais ou menos dois minutos depois dois rapazes jovens entraram na sala e caminharam até a porta no final da sala.
Um deles a abriu e deu de cara com um corpo pendurado por uma corda no pescoço.

- Bom, hoje completaram-se duas semanas. Você me deve 50. – Disse ele subindo em uma cadeira.
- Ok.
Cortou a corda com uma grande tesoura e o corpo caiu no chão provocando assim um estrondo.
- Porque você não o pegou?
- É que esse parece ser pesado. Além disso, não faz diferença nenhuma.
- Vai, dessa vez você ensaca.
- Tudo bem, então você paga a cerveja hoje.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Pingos de Sangue

Coloquei a cabeça para fora da janela.
Senti o vento em meu rosto.
Fechei os olhos.
Despertei com pingos vindos do céu.
Pingos grossos e escuros.
São pingos de sangue.
Preciso entrar o quanto antes.
Não quero me sujar com o sangue dos outros.
Já tenho o meu próprio para me sujar.

sábado, 16 de setembro de 2006

Fragmentos

Um dia conheci uma criatura de magnífica beleza;
Um dia depois, arranquei meus olhos.
__________________________________________

O que os olhos não vêem, o coração não sente;
O que os olhos um dia viram, o coração sentirá para sempre.
Sempre, se não pela presença, então pela ausência.
__________________________________________

A ferida está aberta;
A memória mantém o sangue escorrendo.
__________________________________________

Arranquei meus olhos na esperança de nunca mais te ver,
e assim conseguir esquecer seu rosto que sustenta meu
sofrimento.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Como as Coisas São

Um soldado desarmado
No meio do campo de batalha
A procura de seu escudo
Temendo a morte.

Enfim, o escudo em punho
O corpo ébrio de coragem
Porém, às costas
Uma espada o atravessa
Seu antes companheiro diz
Desculpe, é assim que as coisas são

terça-feira, 12 de setembro de 2006

O Plano

Estou triste. Quer saber o motivo? Pois bem. Fui demitido hoje depois de 20 anos no mesmo emprego. Estou velho e dificilmente arranjarei outro emprego. "Como sustentarei minha família?" pensei comigo. Cheguei em casa e descobri que minha mulher me trai... Com meu melhor amigo. A bastante tempo. Bom, pelo menos uma boa notícia. Não teria mais dinheiro para sustentá-la mesmo.

Que tal isso? Não é um bom motivo para se estar triste? Gostaria que isso fosse verdade. É, a estória que contei a pouco não é verdade. A verdade é que não sei porque estou triste. Não sei se existe um motivo. Deve haver. Por mais ridículo que seja, deve existir um motivo para isso. Talvez o motivo seja esse mesmo. Não ter nada. Antes eu disse que havia sido demitido, mas nem um emprego eu tenho para ser demitido. Disse que fui traído por minha mulher. E com meu melhor amigo. Não tenho nenhum dos dois. Nunca tive. Só uma coisa tem de verdade no que eu disse. Estou velho. Velho para casar. Velho para arranjar um emprego. Velho para consertar minha vida.

– O senhor ainda está acordado?
– Estou sem sono, enfermeira. Mas não se preocupe que logo ele chega. Opa, olha ele ali na esquina. Acene por mim, sim. Sabe que eu não posso.
– Está bem. Já chega. Tente dormir um pouco.

Você me pegou. É, estou no hospital. Mas aposto minhas pernas como não sabe o porque. Mas eu conto.
A história que estava contando foi antes de vir parar neste hospital. Como eu dizia, eu não tinha nada. Emprego, esposa, amigos ou família. E sempre odiei a solidão. Mas nunca fui muito extrovertido, desses que fazem amizades com muita facilidade. Tenho um gênio complicado e poucos são os que apreciam isto. Para falar a verdade eu não encontrei uma pessoa sequer que gostasse. Por isso passei a maior parte da vida solitário. Minha família... Não gosto de falar sobre isso. Meus pais morreram quando eu era muito jovem, por isso não me lembro deles. Fui criado por um tio que não gostava de mim. Na verdade ele não ligava para mim. Mal falava comigo.
Enfim. Um dia ele acabou morrendo. Bala perdida. Foi enterrado como indigente por não ter dinheiro para pagar o próprio funeral. Ou talvez por não ter documentos, não sei ao certo. Não me preocupei em fazer nada. Nem fui ao enterro. Não tinha porque ir. Fazer-me de hipócrita. O fato é que, ele não tinha descendentes. Eu era o mais próximo. Ele não tinha um testamento ou algo parecido, afinal era mais miserável que eu. Pra que ter um testamento de umas poucas linhas? E, além disso, ninguém espera morrer assim, de repente.

Então eu recebi o apartamento dele. Um apartamento minúsculo em uma área industrial da cidade. As ruas aqui, assim como tudo o mais, parecem ser cenários de um filme antigo. Tudo cinza. Muito animador, sabe? Caminhões passam na rua a cada minuto. Mesmo à noite. Já havia me esquecido como o silêncio era.

Você talvez esteja pensando como vivi tanto tempo nessa situação, sem nem mesmo ter um emprego. Eu lhe digo. Eu fazia uns bicos. Qualquer coisa que me desse um pouco de dinheiro. Dentre todas as coisas que eu fiz em todos esses dias, nenhuma eu sabia fazer. Mas fiz mesmo assim. Não tinha nada a perder. Passei fome alguns dias. Em outros eu conseguia comprar comida.

Talvez você não tenha pensado nisso, mas hoje eu penso. Como agüentei isso? Não seria mais fácil desistir de tudo e se deixar morrer? Talvez. Com certeza acabaria o sofrimento. Mas a verdade é que eu gosto de viver. Gosto de observar a vida ao redor. Observar as pessoas andando na rua. Cuidando de suas vidas. Cada uma indo para um lugar diferente, mas todas passando pelo mesmo lugar. Passando pela minha vista.
Adorava pensar que cada uma daquelas pessoas tinha uma vida. Uma família. Amigos. Que de alguma forma estavam todas interligadas. Talvez algum amigo de um amigo de um amigo dessa pessoa conheça esta outra pessoa que acaba de passar do seu lado. Mas elas ignoram esse fato e nem se olham no rosto. Cada uma dessas pessoas tem um passado. Cada uma tem sua própria linha do tempo. Que é diferente de qualquer outra, mas que a qualquer momento pode vir a se cruzar. E novamente elas se interligam de alguma forma inesperada. Uma pessoa, um lugar, um pensamento, uma ocasião.

Desculpe me por isso. Acho que me desviei do caminho que estava seguindo. Mas já retornei.

Um dia cansei-me da solidão. E comecei a pensar em um jeito de acabar com ela. Então descobri um jeito. E tenho orgulho do meu plano. É bem engenhoso.
Eu esperei um momento em que o prédio estivesse sem muito movimento. Essas horas em que a maioria das pessoas já saiu para trabalhar. Então eu saí do meu apartamento, tranquei a porta e arrombei-a dando chutes. Você já vai saber porque. Dei, então, um tapa bem forte no meu rosto. Baguncei as coisas, como se tivessem sido reviradas. Então peguei o telefone e liguei para a policia. Usei um pano no fone para disfarçar a voz, assim como vi em alguns filmes, e disse que ouvi batidas fortes na porta como se tivessem arrombando e depois um grito. Disse o endereço do apartamento como sendo um vizinho e depois desliguei.
Essa parte foi a que eu mais gostei. Fui um tremendo ator. Fingi-me de assustado e ficou muito bom. Talvez eu tivesse futuro como ator. Se alguém tivesse me descoberto quando jovem. Certo, um pouco pretensioso esse comentário, mas não somos impedidos de sonhar. O importante é que deu certo. Logo depois do telefonema, eu não poderia perder tempo, pois os policiais chegariam a qualquer momento. Eles só demoram pra chegar quando é um caso verdadeiro. Outra coisa que se aprende em filmes.
Bom, então eu fiz o que devia fazer, e tive que ter muita coragem para fazer isso. Quebrei meu próprio pescoço. Na verdade não sei se cheguei a quebrar de verdade. Sei que foi o suficiente para me fazer ficar inconsciente e causar um grave dano.

E foi assim que eu resolvi o meu problema de solidão e todos os outros problemas da minha vida. Agora estou no hospital, deitado nesta cama sem poder me mexer. Parece que de algum modo o dano foi baixo o suficiente para me permitir movimentar o pescoço. Então posso virar a cabeça para onde quiser. Mas o resto do corpo está paralisado, sem chances de recuperação. Acabei descobrindo que na verdade o plano foi muito tolo e inconseqüente. Poderia ter morrido, ou pior, ficar também com o pescoço paralisado. Mas na vida, às vezes, temos que nos arriscar. Mesmo se for um risco grande demais para se correr. No final de tudo acho que tenho sorte. Tenho meu pescoço em ordem, enfermeiras o tempo todo para observar e conversar. Tenho até um colega de quarto. Foi atropelado por um carro e quebrou as duas pernas. Tem mulher e filhos em casa. Ele sim tem azar. Duas pernas quebradas. Não queria ser ele.
Mas no final tudo acabou bem. Tenho até uma janela grande ao lado da cama para ver a rua e as pessoas que passam por ela. Depois de um tempo pedindo que me colocassem aqui, eles decidiram aceitar o pedido. Já que vou ficar aqui por um bom tempo. Enfim tenho tudo que quero. Agora estou feliz. Mas na verdade acho que por ficar tempo demais no hospital sobre tais circunstâncias eu já estou começando a ficar meio louco. Acho que ficar falando sozinho por tanto tempo é sinal de loucura. Então acho melhor parar agora antes que não tenha volta.

Enfermeira!

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Lua Minguante

Mi
Era nosso primeiro encontro depois do ocorrido. Finalmente poderíamos nos encontrar sem nada temer.
O psicopata do ex-marido dela estava sempre atrás dela. Já haviam se passado três meses desde o divórcio e ele continuava a nos atrapalhar. Sempre que nos encontrávamos ele aparecia e fazia um escândalo.
Agora sabíamos que ele não nos atrapalharia mais. Uma vez que tentamos nos encontrar no centro da cidade, ele apareceu novamente. Ela já estava cansada daquela perseguição sem fim, e não teve pena de dizer para ele: "Você sempre atrapalhou minha vida. Meus negócios. Você não é uma pessoa normal.
Você é um anormal. Doente mental. -- Então sussurrou em seu ouvido -- Eu nunca amei você."
Aquilo foi demais para ele. Acho que ele não agüentou ouvir a verdade. Saiu correndo pela rua gritando.
Depois disso ela não agüentou e também chorou. Aquilo era demais até para ela. Estava cansada. Por isso, a noite acabou ali.

Pela manhã encontrei uma amiga em comum e ela me contou:
"Que horror! A coitadinha me ligou de noite chorando.
O canalha tinha invadido a casa dela, quebrado tudo, e por final ficou ali na sala, pendurado por uma corda no lustre, olhando para o além." Imagino-a entrando em casa e vendo aquela figura encarando-a. Deve ter sido um choque. Um choque muito grande, pois ficamos um bom tempo sem nos falar. Até esta tarde, quando me pediu para encontrá-la aqui.

Encontrei-a na sacada. Ela estava na outra ponta da sacada, e no momento que eu entrei ela se virou, como se percebesse minha presença. Pude ver aqueles olhos novamente.
Negros, profundos, me encarando. Pude ver o sentimento através de seus olhos. A lua é apenas uma linha no céu. Minguando.

Então ela veio correndo em minha direção, sorrindo. A alegria que eu senti não me deixou fazer nada. Só pude estender os braços e esperar por ela, retribuindo-lhe o sorriso.
Mas o tempo parecia não passar, e ela parecia não chegar nunca. Enfim, quando estava prestes a segurá-la em meus braços, ela despencou em cima de mim. Assustei-me no início não sabendo se ela apenas tropeçou, mas logo constatei que estava desacordada. Pior ainda, não estava respirando.
O pânico me alcançou.
– Não!
Não é possível. Quando estavamos livres. Quando nada poderia nos impedir, isso acontece. Afinal, acho que não poderia acontecer nunca. O acaso conspirou contra nós. Ela morreu em meus braços.

sábado, 12 de agosto de 2006

O Peso da Vida

À noite é que eu sinto o peso da vida. Sentado em meio aos
meus livros. Em meio às minhas anotações, meus cálculos.
Sentindo como se estivesse no topo de uma duna. No meio do
deserto.
O sol alto em cima da cabeça. A boca seca como a areia aos
meus pés. O corpo tão pesado que mal posso me mover.
O cansaço é tanto, que em pouco tempo pego no sono. Desejando nunca mais acordar.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

All Dark

One day you wake up and it's all dark. Like there's no more sun. You can't walk. You can't live. All you can do is touch. Though, some things aren't pleasant to feel. What are you gonna do? You can't even know if your eyes are opened or closed. Just lay down on the ground and wait to die.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Pilar

Quando sua vida é construída
toda em cima de um pilar.
Cuidado.
Com um simples tremor de terra
ela pode desabar.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

A Lâmina

Senti a lâmina fria entrar no abdômen. Pude sentir o calor deixando o corpo pela ferida. A única coisa que podia ver eram seus olhos a cinco centímetros dos meus. Olhos saltados e assustados. Talvez mais do que os meus.
Eles eram castanhos claros. Muito bonitos. Estavam imóveis, me encarando.
Percebi suas pupilas dilatando. Pareciam agora apenas dois buracos nos olhos que davam acesso ao interior de sua cabeça. Meu tempo estava acabando. Dei um passo atrás, desenterrando assim a lâmina do corpo. Desse jeito seria mais rápido. Perco meu equilíbrio e caio para trás. Ele continua lá, imóvel. Mas seus olhos me seguem para o chão com algum atraso.
A faca cai no chão fazendo a lâmina tilintar. Aquele som rasgava meus ouvidos.
Algumas lágrimas escorrem por seu rosto. Mas porque estaria chorando? Será porque percebeu que eu estava chorando também?
Que triste fim. Morrer vendo um homem chorando. E sem saber o motivo.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Consciência

Quando todos já haviam ido dormir, o garoto foi para a sala e zelosamente abriu a caixinha. De lá, tirou uma máscara de teatro, a da tristeza; uma fantasia de bobo do corte; uma corda para forca; uma camisa de força; um maço de cigarros pela metade; um molho de chaves quebradas; um pequeno espelho rachado; uma garrafa de vodca no final; um violão; um pijama em duas peças; um RG falso; um pedaço de pano branco com um círculo vermelho no meio e um punhal sujo de sangue na lâmina.
- Eu não sabia que tinha tanta coisa aqui. - Murmurou ele. Acho que algumas coisas nós não conseguimos esquecer.

Subitamente, por uma distração, ele deixou a caixinha cair. Ela bateu no chão e se rachou em várias tiras de madeira.
"Como somos frágeis" - Pensa ele. Apenas em uma fração de segundo, pois no segundo seguinte, ele cai no chão como se tivesse desmaiado.

- Venha ver meu filho. Outro jovem morreu por uma bala perdida. Está aqui no jornal. Por isso eu falo pra você tomar cuidado na rua. É muito perigoso e nunca se sabe quando alguma coisa vai acontecer. Aqui diz que ele nem agüentou a ambulância chegar. Morreu antes. Que barbaridade.
- Calma mãe. Isso acontece todo dia. Não é novidade. Se não fosse ele, seria outra pessoa.
- Não é novidade, mas garanto que pra mãe dele foi uma grande novidade. Agente pensa que isso nunca acontecerá conosco. Mas acontece. E quando acontece somos pegos de surpresa e não sabemos o que fazer. Eu fico todo dia esperando que alguém ligue falando que algo de ruim aconteceu com você. É uma agonia. Você não sabe o que é ser mãe. Mas quando tiver seus filhos saberá como é. Espero.
- Anda mãe. Esquece isso e vamos ver o filme.

domingo, 9 de julho de 2006

Fantasmas


Sou um homem aprisionado
Posso ir aonde quiser
Posso fazer o que quiser
Mas quando eles aparecem...
Não posso fazer nada
Não posso dizer nada
Não posso gritar por socorro

Só posso agarrar os meus joelhos,
esconder minha cara em meus braços
e torcer para acabar logo.
Torcer para que eles vão embora

Posso tapar meus olhos
Posso tapar meus ouvidos
Mas ainda assim os vejo, os escuto,
dentro de minha cabeça

Quando eles chegam,
só posso esperar que acabe logo
Sou um homem aprisionado
pelos fantasmas do meu passado

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Sonho

Eu sai do seus sonhos pra te dizer que você não pode mais sonhar.
É isso que você ganha de aniversário.
É isso que você ganha sendo adulta.
Quanto mais você sonhar, mais você vai se machucar.
Então é melhor parar agora enquanto pode.
Antes que não consiga mais sair dos seus sonhos
E se torne algo como eu.
Alguém que vive nos sonhos dos outros.

domingo, 2 de julho de 2006

Os Olhos Das Crianças


A maioria das pessoas já deve ter observado.
E não será novidade se eu disser.
Mas para quem ainda não observou isso, eu vou falar.

Você já reparou que as crianças costumam ter olhos
diferentes dos nossos?
São mais abertos. Arregalados mesmo.
Desde bebês.

Eu tenho uma teoria sobre isso.
Quando as crianças nascem,
tudo é novo para elas.
Elas têm curiosidade em ver tudo.
Botões, luzes, cores.
Nenhum detalhe passa despercebido.
Tudo é mágico e recebido com alegria.
A vida é motivo de felicidade.
E elas têm tudo o que precisam.
Por isso é que elas abrem bem os olhos.
Para poder ver tudo com mais clareza.

Porém, com o tempo,
elas passam a conhecer melhor o mundo.
E percebem que o mundo não é só alegrias.
Então, imperceptivelmente seus olhos vão mudando.
Suas palpebras já não ficam sempre tensas,
abertas para ver o mundo.
Elas começam a se fechar para proteger os olhos.
Protegê-los de todas essas visões.
De toda a crueldade do mundo.
Fazendo assim com que tudo passe desapercebido.
Até o dia em que elas se fecham completamente.
E nada mais vejam.

Coisas boas e ruins se misturam na escuridão e no silêncio sepulcral.

quarta-feira, 28 de junho de 2006


Um casal está dormindo em sua cama. O homem levanta e vai para o banheiro.
Lá, encara o espelho enquanto abre a torneira. Ele deixa a água escorrer por suas mãos.
- Eu não posso deixar isso acontecer - Diz ele olhando firmemente nos próprios olhos.
Passa a mão por cima da luminária e puxa uma faca de lâmina grande. Segue para o quarto em passos firmes e decididos e pára próximo a cama.
Puxa a faca na altura do ombro contrário ao braço que a segurava, e sem piscar passa a lâmina no pescoço da mulher.
Logo após o contato com a faca, a pele se afasta e o sangue brota, escorrendo pelo pescoço até encostar-se ao lençol e juntar-se a suas fibras.
Logo, uma mancha vermelha faz parte do lençol, envolvendo a cabeça da mulher.

- Você achou que ia me fazer de trouxa. Fazer-me criar isso. Você não me conhece. Senti-me culpado por ter lido seu diário, mas logo mudei de idéia. Se não tivesse lido, talvez você levasse essa mentira até minha morte. Claro que levaria. Mas cometeu um grande erro por documentar fielmente seus atos.Eu pensei que amasse você, e pior ainda. Que você me amasse.

O homem senta no chão do quarto chorando. Pousa as mãos sobre os joelhos retraídos mantendo a faca pendurada, próxima à perna.
- O que você pensa que eu sou? - Diz com voz chorosa - Um tolo? Um cego? Como conseguiria viver com esse peso? Você é uma pessoa cruel. Desumana. Eu imaginava nosso futuro. Nunca poderia acreditar nisso. Você acabou com a minha vida.
Eu tinha que acabar com a sua. E com a dele também.
Se ele nascesse, seria um amaldiçoado. Ele não teria culpa.
Você matou seu filho!
Eu podia fazer isso, mas você não queria. Não é mesmo?
Você se matou! E muito antes matou seu filho!
Com certeza nos encontraremos logo. O que você fez foi muito pior do que o que eu farei.
Você já havia contado a ele? "Você vai ser pai". Seu miserável. Provavelmente no mesmo dia que me contou. Tão dissimulada.
Eu não fiz nada de errado. Alguma coisa me fez olhar seu diário. Alguém fez isso. Alguém que já sabia de tudo. E não agüentou me assistir vivendo uma mentira. Pois eu agradeço.
Eu não fiz nada de errado. Não foi a minha mão que segurou aquela faca.
Graças a deus não nos encontraremos mais. Você vai para um lugar péssimo. Você merece.
Eu sou a vítima. O iludido.
Adeus.

Um ruído surdo vibra no ar. Procurando ouvidos para ouvi-lo. Mas não havia ninguém ali. Não havia ninguém.

domingo, 23 de abril de 2006

Abatedouro

Pessoas desnudas correndo desesperadas por um corredor estreitíssimo. Gritam de desespero. Lá do alto uma vara muito cumprida chega perto de um deles e ao encostar na pele causa um grito doloroso. Eles tem pressa. Não podem perder um minuto. Assim eles fazem você avançar pelo corredor. Lá na frente você pode ouvir os gritos. Mesmo assim você não consegue voltar. Não te deixam. Os gritos estão cada vez mais altos. Finalmente você chega no final do corredor, entrando em um lugar completamente escuro. Não se pode ver nada. Você sente ser agarrado e levantado. Pendurado de cabeça para baixo. Você sente a sua presença. A morte está a seu lado, esperando o momento de te consolar. Você sente cada vez mais próxima essa sensação. De repente, você sente um fio passar por sua garganta. Sente muito frio. E sente como se algo fosse tirado de seu pescoço. Começa a ficar com o corpo dormente. Então percebe. Sua garganta está dilacerada. Seu sangue escorre aos litros para dentro de um balde. Você não se cotém e começa a se debater. Nada adianta. Você está morrendo. E para que? Por uma "boa" causa. Para os alimentar.

domingo, 25 de dezembro de 2005

Death Dies

Roll your death dies
and hope not to die

Death is inevitable
so why run away
let us keep together
until the death's kiss isn't came

gaze the blank
and wait for the shadow
that will cover your eyes.
these will never see again

let silence take your ears.
these will never hear again

and these silent lips
that used to whiffle sores
will never sigh again
-------------------

Withdrawn he'd sit there
Stare blank into space
No sign of life
Would flicker on his face
Until one day he smiled
It seemed as though with pride
The wind kissed him
Goodbye - and then he died

(Blind Guardian - Beyond The Realms Of Death)


This world is a cruel place
and we're here only to lose
so before life tears us apart
let death bless me with you

(HIM - Join Me In Death)


I can't take pain enough and I run
I can't bleed fast enough
I can't die dead enough

(Megadeth - Die Dead Enough)


not one day goes by that i don't realize
i know that no one will never know
where the flowers go when they are gone
not one day goes by that i don't know that i'm dying

(VAST - I'm Dying)

terça-feira, 11 de outubro de 2005


Tenho medo deste mundo
Mundo que me aprisiona
Mundo de costumes tão estranhos
De coisas que são consideradas normais,
e que antes eram consideradas hediondas
Desse mundo de mentiras
Porque é um mundo construído sobre mentiras
Um dia as mentiras desmoronarão e será o fim da humanidade
Não terão onde se segurar
Apenas mentiras
Agarre-se em uma mentira e você cairá com ela

Como posso acreditar em uma humanidade com costumes tão estranhos
Uma humanidade que acredita que
um pedaço de tecido, muda alguma coisa
seja na cabeça, seja no pé,
seja pendurado na frente do peito

Como levar a sério uma "civilização" que acha que,
por usar um pedaço de pano pendendo a frente do peito,
pode conseguir respeito?

sábado, 1 de outubro de 2005

Amor

Ah... O amor.
Sentimento sofrido.
Sofrimento sentido.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Pessoas Dilaceradas

O trem vem se aproximando da plataforma.
Pessoas, muitas pessoas vem nele.
E se o trem explodise?
Pessoas voariam.
Pessoas morreriam.
Pessoas seriam dilaceradas.

E então...
Pessoas ficariam tristes.
Pessoas não tomariam conhecimento.
Pessoas não ligariam.

Pessoas morreriam.
Pessoas ficariam tristes.
Pessoas esqueceriam.
Pessoas nasceriam!

Pessoas são como brinquedos.
Pessoas são pessoas.
Quebrou? Compre outra!

Pessoas se desesperam
Não podem perder seu trem.
Pessoas se atropelam.
Pessoas empurram um velinho.
Sente falta de ar.
Está parando.
Parando.
Parou.
Cai no chão com um baque.
Pessoas não tomam conhecimento.
E eu ali observando pergunto:
Porque não eu?

Pessoas correm para o trem.
Se apertam para entrar.
Embarquem, embarquem todos.
Logo ele explodirá.

domingo, 21 de agosto de 2005

Orkut

O Orkut diz: Sua felicidade está no horizonte da sua vida.
Ou seja: Nunca alcançarei a felicidade. :-)

sábado, 13 de agosto de 2005

Egoísta

Eu fico triste quando você fica triste.
Não quero ficar triste, mas não consigo ficar feliz vendo que você está triste.
Então faço o possí­vel e o impossível para deixar você feliz. Mas porque eu estou tentando deixar você feliz?
Para eu não ficar triste também, certo? Concluindo... Eu sou egoí­sta. Só quero que você fique feliz para eu não ficar triste.
Entendeu?